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O anarcofeminismo sempre foi, é e será RESISTÊNCIA.

Evocamos a memória de todas as mulheres anarquistas que vieram antes de nós, as muitas que, inclusive, perderam suas vidas, que abriram caminhos com sua coragem, luta e profundo comprometimento com uma militância libertária que incluísse nossas demandas. Que se mantiveram combativas ante a dominação patriarcal, fosse dentro ou fora dos espaços de construção da luta libertária.

Ao longo dos mais de 150 anos do movimento anarquista, foram e são constantes as tentativas de apagamento da existência do movimento anarcofeminista e da voz das mulheres anarquistas. Ainda hoje, os homens são os teóricos anarquistas usados como principais referenciais que norteiam as bases de construção de pensamento e ação dos movimentos libertários, mesmo com inúmeras mulheres que também teorizaram e teorizam o anarquismo.

O fato é que nós sempre estivemos presentes lutando e construindo bases para que o anarquismo insurgisse e resistisse, para que nossa voz nunca fosse silenciada dentro dessa luta.

Nossa presença sempre foi crucial: sem a nossa luta, o movimento não existiria.

Portanto, qualquer tentativa de apagamento, venha de onde venha, será combatida com a mesma força das que vieram antes de nós.

Viva a memória das bravas! Viva Mujeres Libres! Viva Emma Goldman, Voltairine de Cleyre, Lucy Parsons, Louise Michel, Maria Nikiforova, Kanno Sugako, Luce Fabbri, Maria Lacerda de Moura, Isabel Cerruti, Maria Alles, Carolina Boni, Tecla Fabbri, Teresa Cari, Maria Lopes, Juana Rouco, Petronila Infantes, Maria A. Soares, Lucia Sanchez Saornil, Margarita Ortega Valdes, Virginia Bolten e tantas outras!

Viva as anarcofeministas que pesquisam, lutam e resistem HOJE!

E viva as que virão!

SEMPRE LEMBRANDO QUE PENSAMENTOS TRANSFÓBICOS E QUE CONDENEM QUALQUER CLASSE TRABALHADORA DE MULHERES NÃO SE CRIAM DENTRO DO ANARQUISMO!

Coletivo Anarco Feminista Insubmissas – CAFI

Ilustração pela braba @kabocla__  @anarkaarte

Fonte: [https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/14/o-anarcofeminismo-sempre-foi-e-e-sera-resistencia/]




Reformismo e radicalização

Uma resposta sobre a crítica anarquista à política eleitoral. Escrito como parte de uma discussão com alguns companheiros de luta. Revisão: Luiz De Oliveira.

Sumário

O que é ação direta / Um regime fascista exige ação antifascista / Não existe governo libertário / Um discurso mais coerente com a prática / Votar ou não votar. Eis a questão? / “Mas, no atual contexto, o que é viável?” / Genocídio como política institucional / Referências

Recentemente, foi publicada uma avaliação do ato do dia 29 de maio de 2021 que gerou uma discussão sobre anarquismo.

Nessa avaliação, foram criticados dois aspectos da organização do ato: 1. O mau uso do microfone. 2. A reação ao enfrentamento com a polícia.

Houve dois momentos que isso veio à tona: No primeiro, uma pessoa usou o microfone para criticar o excesso de discurso eleitoreiro e lembrar que a situação política atual não se resolve nas urnas. Ela foi imediatamente interrompida. No segundo, algumas pessoas se recusaram a obedecer a polícia e desocupar a rua. A reação variou entre “pra que provocar?”, “de que lado vocês estão?” e “isso é uma atitude fascista”. No microfone, alguém ameaçou: “Se vocês não se comportarem, nós vamos nos retirar”. Finalmente, um “policial antifascista” pegou o microfone, disse que policiais também são trabalhadores e foi aplaudido entusiasticamente.

Como resposta, algumas pessoas questionaram a validade do anarquismo. Me perguntaram quais seriam as propostas concretas, e fizeram algumas associações entre o pensamento anarquista e o fortalecimento da direita. Quem está familiarizado com o meio anarquista conhece bem esse discurso, ele é usado sempre que se aproximam as eleições.

Dizem que esse governo é genocida, fascista e ilegítimo. Ao mesmo tempo, a estratégia de enfrentamento não apresenta nenhuma mudança. Aparentemente, a esquerda partidária pretende realizar ações ainda menos radicais do que as que realizou nos protestos contra os cortes de verbas da educação durante o governo do PT. O desgaste da estrutura política representativa, evidenciada no número crescente de abstenções, deveria provocar uma radicalização das táticas e, no entanto, o que vemos é um retrocesso na radicalização. Como pode o genocídio ser respondido de modo menos radical do que um corte de verbas?

Há uma tensão entre duas perspectivas anticapitalistas: os reformistas e os radicais. Será que a presença de anarquistas é realmente bem-vinda nas manifestações? Será que os “donos do microfone” não preferem que os anarquistas fiquem em casa? Talvez, o que realmente pensam é: “Não queremos vocês aqui, vocês só causam problema”. Por que chamar anarquistas para compor uma “unidade” e depois deixá-los à disposição da polícia como se fossem “infiltrados” e simplesmente, por agirem como anarquistas?

“Precisamos proteger as pessoas”, me parece uma desculpa esfarrapada. Os líderes dos movimentos partidários estão protegidos por um status social que a maioria das pessoas não tem. Qual a chance da polícia atacar quando esses líderes estão na linha de frente? Se estes puxassem um “recua, polícia, recua…”, com certeza seriam imitados por seus seguidores, que permaneceriam seguros na superioridade numérica e pela presença de personalidades políticas “intocáveis”. Ao invés disso, preferem deixar que uma minoria seja marcada como alvo preferencial da violência policial. Isso coloca todas as pessoas que se encaixam no estereótipo de “anarquista” em maior risco, durante e depois das manifestações.

Um governo genocida não precisa de pretexto para atacar a população. Se a luta dos partidos é contra um governo genocida, como eles dizem, porque agem como se estivessem lutando contra um governo eleito democraticamente, que pode ser substituído pela via democrática? Essa é a contradição entre teoria e prática. Jamais se viu uma luta contra um governo genocida ser decidida numa eleição.

Se estamos enfrentando um governo ilegítimo, isto significa que a estrutura governamental como um todo está profundamente danificada. Não se trata apenas de uma administração mal feita ou de um crime contra a humanidade cometido por um presidente, sua família e seus associados. Mas o discurso fica confuso quando cobram que este governo ilegítimo se comporte como um governo legítimo. Mas a insistência no uso de estratégias políticas convencionais demonstra que os partidos não estão realmente considerando esse governo como ilegítimo. Quem obedece as ordens de um governo genocida se torna cúmplice de genocídio.

A luta contra um governo ilegítimo exigiria a construção de poder popular de baixo pra cima. Se o que esperam é a tomada do poder institucional pela via democrática, necessariamente só o podem fazer a partir de negociações e alianças com representantes e apoiadores do atual governo. O que os partidos acreditam é que precisamos de um presidente melhor. Mas não é como se isso nunca tivesse acontecido. Um partido gestado pelas lutas operárias esteve no poder. Se isso não foi suficiente, é porque enquanto estavam produzindo crescimento econômico, também estavam gestando as condições para o atual governo, graças às alianças necessárias para manter a governabilidade. É compreensível que as pessoas não acreditem que isso mudará num próximo governo do mesmo partido. O governo de conciliação de classes não funciona. O que nos resta é a guerra de classes.

Diante dessa crítica, os partidários se perguntam: “Se não é assim, então como? Qual a sua proposta?”. Embora eu saiba que a frase “toda crítica sem proposta é vazia” não seja um argumento válido, vale a pena falar um pouco sobre outras possibilidades.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://contraciv.noblogs.org/reformismo-e-radicalizacao/

agência de notícias anarquistas-ana

Fonte: [https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/10/reformismo-e-radicalizacao/]




[França] Face à pandemia, apoio mútuo e reapropriação

11 de abril de 2021

A gestão da pandemia mundial pelos governos, incluindo o francês, está de acordo com o cinismo habitual do capitalismo: deixar morrer os mais pobres para que a economia continue funcionando.

Essa pandemia é também social: ela afeta mais fortemente as populações mais pobres (até cinco vezes mais de mortos) e os mais isolados.

Entretanto, uma solução existe hoje: várias vacinas estão disponíveis e oferecem cobertura suficiente para ajudar a sair desse marasmo mundial.

A Federação Anarquista tem ideias claras: o apoio mútuo ao invés do cada um por si, a solidariedade ao invés da caridade, a Humanidade ao invés do mercado. Frente a essa pandemia não podemos continuar deixando as multinacionais e os Estados disporem de nossas vidas.

Clamamos pelo fim da corrida capitalista. Apelamos pela auto-organização do apoio-mútuo para não deixar ninguém de lado, quer seja por conta de bens materiais ou por dificuldades psicológicas, que um momento como esse pode provocar. E inclusive para além da pandemia, quando ela for superada. Conclamamos por uma Internacional da Saúde, contra o mercado e pela humanidade.

Ainda mais urgente, conclamamos a que as patentes das vacinas sejam quebradas, permitindo sua fabricação em maior escala e mais rapidamente. Existe entre 5 e 7 bilhões de pessoas a serem vacinadas, e não podemos dizer que, quando os países ricos forem vacinados, ficaremos indiferentes ao resto do mundo. Apelamos aos que trabalham na indústria farmacêutica a tomar nas mãos as ferramentas e saírem da lógica do capitalismo e fabricarem para toda a humanidade os cuidados e meios de proteção de que esta necessita.

Sabemos que esses apelos não serão suficientes, e precisamos organizar de outra forma a sociedade, e de maneira horizontal e sem dominação.

É nisso que nos agarramos e só podemos desejar que um número cada vez maior de pessoas se junte a essa aventura, que engrandecerá a Humanidade.

Com ou sem pandemia.

Relações Exteriores da Federação Anarquista 

federation-anarchiste.org

Fonte: [https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/09/franca-face-a-pandemia-apoio-mutuo-e-reapropriacao/]




[Espanha] As redes sociais e as massas de sonâmbulos

Uma guerra, a das redes sociais, não termina porque se abandona a batalha.

Por José Mansilla | 05/06/2021

Há algumas semanas, quando Ada Colau anunciou que estava saindo do Twitter, mergulhamos em um debate que talvez tenhamos fechado de forma falsa e precipitada. Em sua carta de despedida, a prefeita de Barcelona apresentou três razões principais para sua decisão: a falta de debates reais, de uma troca de opiniões fundamentada e ordenada, e sua substituição por mensagens que intoxicam e incitam ao ódio; o que ela mesma apresentou como “a tirania da presença permanente”. Ou seja, a necessidade de entrar em cada notícia, discussão ou disputa para a qual você é chamado e a criação de uma certa atmosfera artificial nesta rede. Uma maneira de se relacionar, de ser, que inadvertidamente saltou do Twitter para a vida real e acabou influenciando tudo.

Depois dela, muitas outras personalidades também anunciaram sua saída, seja por solidariedade ou por sinceramente compartilharem seus pontos de vista sobre o funcionamento da rede. Para mim, todas estas razões podem ser resumidas em uma só, também delineada, embora condicionalmente, pela própria prefeita: “Que a rede e o algoritmo acabam tomando muito tempo. E, além disso, a sensação é que distorcem a realidade: representam polêmicas e discursos de ódio, acabam quase convencendo que a humanidade é má, desconfiada, egoísta”. Minha hipótese é que esta é precisamente a principal função que o Twitter está desempenhando hoje, mas não como uma sensação, como um quase convencimento, mas de uma forma real e, sobretudo, consciente. Entretanto, não creio que a decisão mais apropriada a este respeito seja deixá-lo, ir embora, mas entender como funciona, como estas controvérsias e discursos são gerados para poder administrar melhor o tempo dedicado a ele e lidar com eles. Uma guerra não acaba porque se abandona a batalha.

Como as opiniões são formadas e disseminadas

As primeiras abordagens das ciências sociais às formas de formação e disseminação de opiniões são quase tão antigas quanto a origem da própria sociologia. Teríamos que voltar à velha controvérsia entre massa/multidão e público que colocou dois dos pais fundadores desta ciência um contra o outro: Emile Durkheim e Gabriel Tarde. Para o primeiro, o simples agrupamento de diversos indivíduos elevou suas consciências individuais e as transformou em algo mais, em algo diferente, uma razão coletiva que obedeceu a suas próprias leis; um ser orgânico e social que agiu com sua própria mente diferenciada. No entanto, ele chegaria a tais apreciações. Para ele, uma massa, uma multidão, nunca perdeu a consciência individual, a mente, de seus diferentes átomos em conformidade. Não havia nenhuma consciência externa, nenhuma lei que a fizesse comportar-se de uma certa maneira. A efervescência social de Durkheim foi explicada por Tarde pelo que ele chamou de Leis da Imitação, ou seja, microprocessos, ações reversíveis, relações assimétricas que podem ser diretas ou indiretas, voluntárias ou involuntárias, conscientes ou inconscientes, e que são transmitidas entre indivíduos. É sua repetição que lhes confere um caráter estável e, por sua vez, gera processos de socialização. Entretanto, esta repetição não se torna consciência coletiva, mas, ao contrário, reafirma e cria individualidade. Para Tarde, esta imitação/repetição gera uma espécie de “sonambulismo”, nas próprias palavras do sociólogo, o que significa uma perda de identidade individual, de racionalidade. Neste sentido, a proposta de Tarde se conecta com A Psicologia das Massas de Gustave Le Bon, com grupos humanos que só poderiam ser descritos por meio de adjetivos negativos e estigmatizantes, muitas vezes relacionados ao gênero feminino – para Le Bon, as massas eram como mulheres histéricas-.

Tendo dito tudo isso, pode-se entender que as propostas de um liberal-conservador como Gabriel Tarde se concentraram precisamente em evitar a geração de massas, de multidões, que ele via como um estágio evolutivo inferior ao do público. Para o sociólogo francês, esta era uma multidão dispersa, ou seja, um grupo de pessoas sem coincidência no espaço e no tempo, no qual a influência mútua, ou seja, as leis da imitação, atuavam à distância. Esta separação, que não era mais, como bem aponta o sociólogo Artemio Baigorri, do que um exemplo do grande meio burguês para as massas, permitiu que as mentes mais excluídas e cultivadas se impusessem a um grupo de indivíduos formado por “pessoas honestas”, novamente nas palavras de Tarde, que leem jornais e livros escritos, precisamente, por e para a minoria intelectual da época. A possibilidade de controlar a mensagem também impediu a passagem desse público para as massas, ou seja, do controle para a falta de controle de grupos sociais inteiros. Entretanto, os jornais, assim como outras publicações, eram apenas mais uma forma, e na verdade uma forma pequena, na qual ideias poderiam ser disseminadas e o controle poderia ser introduzido. A maioria deles se espalhou de acordo com outro dos elementos estudados por Tarde: a conversa.

Para Gabriel Tarde, a conversa era um sintoma de civilização. Este pai da sociologia observou, além disso, que a conversa estava se tornando cada vez mais rápida, mais apressada, em uma observação em linha com a proposta de Marx sobre a aceleração da velocidade de circulação do capital como um elemento distintivo do capitalismo moderno. Esta rapidez significava, por outro lado, que debates calmos e conscientes estavam sendo colocados de lado e uma maior importância era dada à mera troca de informações; uma troca que, além disso, podia ser analisada de acordo com as leis da imitação. As ideias das conversas foram dadas – e tiveram que ser dadas – pela imitação do inferior sobre o superior, ou seja, pelas classes sociais mais baixas – trabalhadores e camponeses – sobre as superiores, a elite intelectual e burguesa da época. As propostas de Tarde não podem ser separadas de sua visão conservadora e liberal, suas propostas levam todas a evitar, de diferentes maneiras e por meio de diferentes instrumentos, a conformação de massas, um grupo de seres sonâmbulos e histéricos por meio da mediação na transmissão de informações, a geração de debates, de cima para baixo, de uma classe social para outra. Tudo isso desapareceu na era das redes sociais.

A extinção dos mediadores

Se algo nos trouxe a popularização e a democratização do acesso à Internet, foi o desaparecimento, a extinção, poderíamos dizer, dos mediadores. Cada um de nós tem acesso à grande conversa que é Twitter, Facebook, Youtube ou Reddit, mas também à blogosfera e à infinidade de publicações de um ou outro tipo e assuntos que a Internet permite. Esta conversa global que, como Tarde disse, “só pode acontecer entre iguais” tornou-se, como não poderia deixar de ser, uma selva onde prevalece a lei do mais forte. A substituição de alguns mediadores por outros – digamos, do El País ou ABC por conhecidos tweeters ou blogueiros famosos, como Javier Negre ou Antonio Maestre, e a mídia financiada e apoiada pela extrema direita, como La Gaceta de la Iberosfera, mas também a aparição de supostos empreendedores, oportunistas e spin doctors de nova criação, rompeu com os esquemas Tardeanos da criação de um público racional e superior capaz de elevar o moral das classes mais baixas e, ao mesmo tempo, educá-las.

Agora é muito mais importante conhecer de forma oportuna o algoritmo que permite a expansão, a viralidade, das mensagens, do que a própria ideia a ser transmitida. Somente desta forma é possível transformar este público em uma massa sem forma que atua, como Ada Colau salientou, de acordo com o caráter do líder de opinião, intoxicante, insultante ou simplesmente contribuindo para a disseminação de mentiras, embustes e ultrajes. Em Antissocial, A extrema direita e a liberdade de expressão na internet, seu autor, Andrew Marantz, explica muito bem quando aponta que “o Twitter não foi concebido como um padrão confiável […] a plataforma não refletia objetivamente os pensamentos e opiniões de todos […]. O que o Twitter realmente refletia era a interação: quais memes geravam, em um dado momento, as emoções mais ativas. Isto significava que a plataforma representava a controvérsia […], que os trolls e outros macro-focalizadores podiam intencionalmente gerar pseudo-escândalos quase sempre que quisessem […], a amplitude nunca foi distribuída uniformemente”.

As teorias de Tarde não se tornaram realidade, não porque a burguesia tenha perdido o poder, mas porque cedeu o assento do piloto a uma massa enfurecida de indivíduos que só procuram se enriquecer, no melhor dos casos, mas que, em outros, agem sem consciência, sem ideologia delineada ou, simplesmente, por motivação puramente xenofóbica ou antissocial. Entretanto, e como eu disse no início deste texto, a solução não é deixar em suas mãos a criação de massas de sonâmbulos, mas lutar para que eles não acreditem em si mesmos e caiam nas mãos de uma extrema direita que, como disse Alfred, mordomo de Bruce Wayne, “às vezes eles só querem ver o mundo arder”. Tarde não estava certo, pois as massas não formam consciências coletivas superiores. Estas podem ser geradas oferecendo resistência, debate, criando novas narrativas e recuperando as antigas, não apenas em redes sociais, mas no palco por excelência do combate social, a rua, um palco que estes pilotos não conhecem e não podem controlar.

Fonte Orginal: https://www.elsaltodiario.com/opinion/redes-sociales-y-masas-de-sonambulos

Tradução > Liberto

Fonte: [https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/09/espanha-as-redes-sociais-e-as-massas-de-sonambulos/]




[Canadá] Estátua de criador de ‘escolas indígenas’ é derrubada em Toronto

Um grupo de manifestantes derrubou em 06/06 a estátua em homenagem a Egerton Ryerson, que estava localizada na Universidade Ryerson, em Toronto, por conta da revelação recente de 215 ossadas de crianças indígenas em um internato na Colúmbia Britânica.

Ryerson é considerado um dos idealizadores do projeto dos internatos que forçavam os menores de idade dos grupos originários do Canadá a se “integrarem” na sociedade, abandonando suas tradições e línguas, e aprendendo a se portar “como um canadense”.

A derrubada é só o ato final dos diversos protestos perante à obra que ocorrem desde a última semana. Ela já estava toda pintada de vermelho e danificada. Agora, os manifestantes cobram que a universidade mude de nome.

Em nota, a instituição de ensino afirmou que não vai repor a estátua e que, até setembro, deve dar uma resposta sobre o que fará sobre o assunto, não descartando a possibilidade de renomeação.

A vala comum foi encontrada através do uso de tecnologia em uma busca preliminar na Kamloops Indian Residential School e causou furor entre a população. Apesar de encontrar 215 restos mortais, os investigadores acreditam que há milhares de vítimas de maus tratos e mortes nessas instituições.

Neste domingo, o papa Francisco se disse “chocado” com a descoberta. Apesar de serem instituições de Estado, cerca de 70% das “escolas” foram geridas por instituições católicas.

Segundo dados oficiais, foram cerca de 130 internatos do tipo criados no país entre os anos de 1874 e 1996, sendo que a Kamloops era o maior deles.

Um relatório publicado em 2015 afirmou que essas entidades “praticavam o genocídio cultural” e destacou que qualquer autoridade canadense no período, seja do governo nacional, local ou religioso, sabia dos danos irreversíveis provocados por essas escolas.

Fonte: [https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/08/canada-estatua-de-criador-de-escolas-indigenas-e-derrubada-em-toronto/]




Lançamento: “Sobre o movimento curdo e o pensamento de Öcalan”, de David Graeber

É com prazer que lançamos hoje o livro “Sobre o movimento curdo e o pensamento de Öcalan”, de David Graeber. Na obra, resultado de um estudo ainda não publicado, o antropólogo radical analisa a potência teórica e do pensamento de Abdullah Öcalan para a luta de libertação do povo curdo, assim como para as ciências humanas e sociais, ponderando sobre as limitações que a universidade atual impõe sobre seus docentes e discentes.

Graeber expõe ainda a batalha travada nas linhas escritas por Öcalan, que busca teoricamente dar suporte ao pensamento autônomo dos povos, ao passo em que encarna a chave para a paz nas regiões onde habitam os curdos, sendo reconhecidamente um líder político e teórico do movimento deste povo.

A obra, que conta com 40 páginas, pode ser adquirida pelo valor de R$15,00 com o frete grátis para todo o país. Em pré-venda, acompanhará o pôster “pela liberdade de Abdullah Öcalan”.

Acesse nossa loja em https://linktr.ee/tsa.editora

agência de notícias anarquistas-ana

Fonte: [https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/08/lancamento-sobre-o-movimento-curdo-e-o-pensamento-de-ocalan-de-david-graeber/]




[Antimidia] A Polícia Não Está do Seu Lado – com Facção Fictícia

No quinto episódio da série Vozes Anarquistas, o coletivo Facção Fictícia desmonta os argumentos do youtuber e defensor de uma polícia mais “educada” Delegado Da Cunha, que tentou justificar a Chacina do Jacarézinho.

Fonte: [https://antimidia.org/a-policia-nao-esta-do-seu-lado-com-faccao-ficticia/]




Otto Rühle – ​ A Luta Contra o Fascismo Começa Pela Luta Contra o Bolchevismo

​I

É preciso colocar a Rússia na primeira linha dos novos Estados totalitários. Ela foi a primeira a adotar o novo princípio de Estado. Foi ela que levou mais longe a sua aplicação. Foi a primeira a estabelecer uma ditadura constitucional, com o sistema de terror político e administrativo que o acompanha. Adotando todas as características do Estado totalitário, tornou-se assim o modelo para todos os países constrangidos a renunciar ao sistema democrático para se voltarem para a ditadura. A Rússia serviu de exemplo ao fascismo.

Não se trata absolutamente de um acidente nem de uma brincadeira de mau gosto da história. A semelhança de sistemas, longe de ser apenas aparente, é aqui real. Tudo mostra que enfrentamos expressões e consequências de princípios idênticos aplicados a níveis diferentes de desenvolvimento histórico e político. Que isso agrade ou não aos partidos “comunistas”, o fato é que o Estado, como a maneira de governar na Rússia, em nada difere da Itália e da Alemanha. Eles são fundamentalmente semelhantes. Pode-se falar de um “Estado Soviético” vermelho, negro ou castanho, assim como de um Fascismo vermelho, negro ou castanho. Mesmo se existem entre países certas diferenças ideológicas, a ideologia nunca teve uma função determinante. Aliás, as ideologias são mutáveis, e tais mudanças não refletem forçosamente o caráter e as funções do aparelho de Estado. Por outro lado, a manutenção da propriedade privada na Alemanha e em Itália não passa de uma modificação secundária. A abolição da propriedade privada pode ser abolida no quadro do capitalismo. O que determina de fato uma sociedade socialista é, além da abolição da propriedade privada dos meios de produção, a gestão pelos operários dos produtos do seu trabalho, e o fim do salariato. Tanto na Rússia como na Itália estas condições não estão preenchidas. Se bem que, segundo alguns, a Rússia esteja mais próxima do socialismo que outros países, daí não se deduz que o “Estado Soviético” tenha ajudado o proletariado internacional a aproximar-se dos seus objetivos de classe. Pelo contrário, uma vez que a Rússia se faz designar como um Estado socialista, ela engana os trabalhadores do mundo inteiro. O operário consciente sabe o que é o fascismo, e combate-o; mas no que respeita à Rússia, ele está demasiado inclinado aceitar o mito da sua natureza socialista. Esta ilusão retarda a ruptura completa e resoluta com o fascismo, porque entrava a luta principal contra as causas, as condições e as circunstâncias que — na Rússia como na Alemanha e em Itália — conduziram ao mesmo sistema de Estado e governo. Assim, o mito russo transforma-se em arma ideológica da contrarrevolução.

Ninguém pode servir dois senhores. Um Estado totalitário também não. Se o fascismo serve os interesses do capitalismo e do imperialismo, ele não pode satisfazer as necessidades dos trabalhadores. Se, a despeito de tudo isso, duas classes opostas aparentemente sustentam o mesmo sistema de Estado, é evidente que qualquer coisa não está bem e uma delas se engana. Ninguém pode, reduzindo o problema a uma simples questão de forma, pretender que ele não seja importante e que, ainda que por vezes as suas formas políticas sejam diferentes, os seus conteúdos podem variar consideravelmente. Isto conduzirá a uma auto-mistificação. Para um marxista, as coisas não se passam assim; a forma e o conteúdo são indissociáveis. Portanto, se o Estado soviético serve de modelo ao fascismo, deve conter características estruturais e funcionais comuns. Para determinar quais, é preciso regressar à análise do “sistema soviético”, tal como foi inspirado pelo leninismo, que é a aplicação dos princípios bolcheviques às condições russas. E se se pode estabelecer uma identidade entre o bolchevismo e o fascismo, então o proletariado não pode ao mesmo tempo combater o fascismo e apoiar o “sistema soviético” russo. Pelo contrário, o combate contra o fascismo deve começar pelo combate ao bolchevismo.

​II

Desde o princípio, Lenin concebia o bolchevismo como um fenômeno puramente russo. Ao longo dos seus numerosos anos de atividade política, ele nunca tentou içar o sistema bolchevique ao nível das formas de luta utilizadas nos outros países. Era um social-democrata, para quem Bebel e Kautsky continuavam os líderes geniais da classe operária, e ele ignorava a ala esquerda do movimento socialista alemão que se opunha precisamente aos heróis de Lenin e a todos os oportunistas. Ignorando esta esquerda, ele continuou pois isolado, rodeado por um pequeno grupo de emigrados russos, e manteve-se sob a influência de Kautsky, ainda quando a “esquerda” alemã, dirigida por Rosa Luxemburgo, já estava lançada na luta aberta contra o Kautskismo.

A Rússia era a única preocupação de Lenin. O seu objectivo era acabar com o sistema feudal czarista e conquistar o máximo de influência política para o seu partido social-democrata no quadro da revolução burguesa. Contudo a força da Revolução de 1917 conduziu Lenin muito para lá dos seus objetivos presumidos, e o partido bolchevique alcançou o poder em toda a Rússia. Contudo, esse partido sabia que não podia continuar no poder e fazer avançar o processo de socialização sem desencadear a revolução proletária mundial. Mas a sua atuação nesse domínio teve resultados infelizes. Contribuindo para remeter os operários alemães aos partidos, sindicatos, parlamento, e destruir o movimento dos conselhos alemães, os bolcheviques prestaram um grande auxílio ao esmagamento da revolução europeia nascente.

O partido bolchevique, formado por revolucionários profissionais e largas massas atrasadas, continuava isolado. Não podia desenvolver um verdadeiro sistema soviético durante os anos da guerra civil, intervenções estrangeiras, declínio econômico, fracassos nas tentativas de socialização e constituição de um Exército Vermelho improvisado.

Ainda que os sovietes, desenvolvidos pelos mencheviques, sejam estranhos ao esquema bolchevique, foi contudo graças a eles que estes chegaram ao poder. Uma vez assegurada a estabilização do poder, e iniciado o processo de reconstrução econômica, o partido bolchevique não sabia já como coordenar o sistema de sovietes, que não era o seu, com as suas próprias atividades e decisões. Contudo, realizar o socialismo era também o desejo dos bolcheviques, e isso necessitava da intervenção do proletariado mundial.

Para Lenin, era essencial ganhar os proletários do mundo para os métodos bolcheviques. Era, na verdade, muito incômodo constatar que os operários dos outros países, a despeito do grande triunfo obtido pelos bolcheviques, se mostravam pouco inclinados a aceitar a sua teoria e prática, mas eram muito mais atraídos pelo movimento dos conselhos, que apareciam então em muitos países e particularmente na Alemanha.

Esse movimento dos conselhos já não tinha qualquer utilidade para Lenin, na Rússia. Em outros países europeus, manifestava-se uma tendência nítida de oposição a levantamentos do tipo bolchevique. A despeito da enorme propaganda desenvolvida por Moscou em todos os países, a agitação conduzida pelo que se chama a ultra-esquerda para uma revolução baseada no movimento dos conselhos despertou, tal como Lenin o sublinhou, um eco bem maior de todos os propagandistas enviados pelo partido bolchevique. O Partido Comunista Alemão, seguindo o exemplo do bolchevismo, continuava um pequeno grupo histérico e barulhento, formado, principalmente por elementos proletarizados da burguesia, enquanto que o movimento dos conselhos atraía os elementos mais determinados da classe operária. Para fazer face a esta situação, era preciso reforçar a propaganda bolchevique, era preciso atacar a “ultra-esquerda” e modificar a sua influência a favor do bolchevismo.

Uma vez que o sistema dos sovietes tinha falhado na Rússia, podia, como a “concorrência” radical, ousar tentar provar ao mundo que aquilo em que o bolchevismo tinha falhado, na Rússia, se podia obter noutro local, sem necessidade dele? Para se defender, Lenin escreveu o seu panfleto “O Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”, ditado pelo medo de perder o poder e pela indignação perante o sucesso dos histéricos. O panfleto apareceu inicialmente sob o título “Ensaio de Exposição Popular da Estratégia e Tática Marxistas”, mas depois esta frase ambiciosa e idiota foi suprimida. Era demais. Esta bula papal, agressiva, grosseira e odiosa, era uma verdadeira bênção para qualquer contrarrevolucionário. De todas as declarações programáticas do bolchevismo esta é a que revela melhor o seu caráter real. É o bolchevismo posto a nu. Quando em 1935, Hitler suprimiu, em toda a Alemanha, toda a literatura comunista e socialista, a publicação e a difusão do panfleto de Lenin continuaram autorizadas.

No que respeita ao conteúdo do panfleto, não nos interessamos aqui sobre o que diz a propósito da Revolução russa, a história do bolchevismo e as outras correntes do movimento operário, ou as circunstâncias que permitiram a vitória do bolchevismo. O nosso único propósito será de analisar os argumentos principais que, na época da controvérsia entre Lenin e a “ultra-esquerda”, ilustravam as diferenças decisivas entre os dois adversários.

​III

O partido bolchevique, originalmente seção social-democrata russa da II Internacional, constitui-se não na Rússia, mas na emigração. Depois da cisão de Londres, em 1903, a ala bolchevique da social-democracia russa reduziu-se a uma seita secreta. As “massas que a apoiavam apenas existiam no cérebro dos seus chefes. Contudo, esta pequena elite era uma organização estritamente disciplinada, sempre pronta para as lutas militantes, e submetida a purgas contínuas para manter a sua integridade. O partido era necessário como a academia militar dos revolucionários profissionais. Os seus princípios pedagógicos marcantes eram a autoridade indiscutível do chefe, um centralismo rígido, uma disciplina de ferro, o conformismo, o militarismo e o sacrifício da personalidade aos interesses do Partido. O que Lenin desenvolvia na realidade era uma elite de intelectuais, um núcleo que, lançado na revolução, tomaria a direção e se encarregaria do poder. É inútil procurar determinar lógica e abstratamente se uma tal preparação para a revolução é justa ou errada. O problema deve resolver-se dialeticamente. É preciso levantar para já outras questões: que espécie de revolução estava em gestação? Qual era o seu objetivo?

O partido de Lenin trabalhava, no quadro da tardia revolução burguesa russa, no derrube do regime feudal czarista. Nesse tipo de revolução, quanto mais à vontade do partido dirigente é centralizada e orientada para um único objetivo, tanto mais o processo de formação do Estado será prometedora. Contudo, o que se pode considerar como uma feliz solução dos problemas revolucionários numa revolução burguesa não pode passar ao mesmo tempo pela solução dos problemas da revolução proletária. A diferença estrutural entre a sociedade burguesa e a nova sociedade socialista exclui uma tal ambivalência.

Segundo o método revolucionário de Lenin, os chefes são o cérebro das massas. Possuindo a educação revolucionária apropriada, são ainda capazes de apreciar as situações e comandar as forças combatentes. Eles são revolucionários profissionais, os generais do grande exército civil. Esta distinção entre o cérebro e o corpo, entre os intelectuais e as massas, os oficiais e os simples soldados, corresponde à dualidade da sociedade de classe, à ordem social burguesa. Uma classe é treinada para comandar, a outra para obedecer. É a velha forma de classe de que saiu a concepção leninista do partido. A sua organização é apenas uma simples réplica da realidade burguesa. A sua revolução é objetivamente determinada pelas mesmas forças que criam a ordem social burguesa, abstração feita dos objetivo que acompanham esse processo.

Quem quer que procure estabelecer um regime burguês, encontrará, no princípio da separação entre o chefe e as massas, entre a elite e a classe operária, a preparação estratégica de uma tal revolução. Quanto mais a direção é inteligente, instruída e superior, mais as massas são disciplinadas e obedientes, e também mais uma tal revolução tem possibilidades de vencer. Procurando fazer a revolução burguesa na Rússia, o partido de Lenin estava pois completamente adaptado ao seu objetivo. Quando, contudo, a revolução russa mudou de natureza, quando as suas características proletárias se tornaram evidentes, os métodos táticos e estratégicos de Lenin perderam o seu valor. Se ele levou a sua avante não foi por causa da sua elite, mas sim do movimento dos sovietes que ele não tinha incluído nos seus planos revolucionários. E quando Lenin, uma vez assegurado pelos sovietes o triunfo da revolução, decidiu uma vez mais livrar-se deles, com eles todos os caracteres proletários da revolução desapareceram. O caráter burguês da revolução ocupou de novo a cena, encontrando a sua conclusão natural no stalinismo.

A despeito da sua preocupação da dialética marxista, Lenin era incapaz de conceber dialeticamente a evolução histórica dos processos sociais. O seu pensamento continuava mecanicista, seguindo regras rígidas. Para ele, apenas existia um único partido revolucionário – o seu; uma única revolução – a revolução Russa; um único método – o bolchevismo. E o que tinha obtido sucesso na Rússia, devia obtê-lo também na Alemanha, França, América, China e Austrália. O que era correto para a revolução burguesa russa, sê-lo-ia também para a revolução proletária mundial. A aplicação monótona de uma fórmula, descoberta uma vez por todas, evoluía num círculo egocêntrico onde não entravam em consideração nem a época, as circunstâncias ou os níveis de desenvolvimento, realidades culturais, ideias ou homens. Com Lenin, era o advento do maquinismo em política1; ele era “técnico” o “inventor” da revolução, o representante da vontade toda-poderosa do chefe. Todas as características fundamentais do fascismo existiam na sua doutrina, estratégia, “planificação social” e arte de manejar os homens. Ele não podia perceber a profunda significação revolucionária da rejeição pela esquerda da política tradicional do partido. Não podia compreender a verdadeira importância do movimento dos sovietes para a orientação socialista da sociedade. Ignorava as condições requeridas pela libertação dos operários. Autoridade, direção, força, exercidas de um lado, organização, do outro – tal era a sua maneira de raciocinar. Disciplina e ditadura são as palavras que surgem mais frequentemente nos seus escritos. Compreende-se, pois, facilmente, porque não podia aceitar ou apreciar as ideias e ações da “ultra-esquerda”, que recusava a sua estratégia e reclamava o que, evidentemente, era indispensável na luta revolucionária para o socialismo – a saber, que os operários tomassem uma vez por todas a sua sorte em mãos.

​IV

A apropriação pelos operários da sua própria libertação – problema central do socialismo –, era o objetivo fundamental de todas as polêmicas entre os ultra-esquerda e os bolcheviques. O desacordo sobre a questão do partido encontrava o seu paralelo no desacordo sobre os sindicatos. A ultra-esquerda pensava que já não havia lugar para os revolucionários no seio dos sindicatos, que era, pelo contrário, necessário construírem os seus próprios quadros organizacionais no interior das fábricas, lugares de trabalho comuns2. Contudo, graças à sua autoridade usurpada, os bolcheviques tinham conseguido, desde as primeiras semanas da revolução alemã, convencer os operários a regressarem aos sindicatos capitalistas reacionários. Para atacar os ultra-esquerda, para os denunciar como contrarrevolucionários, Lenin utiliza, uma vez mais, no seu panfleto as suas fórmulas mecanicistas. A sua argumentação contra a posição da esquerda não se refere aos sindicatos alemães, mas às experiências sindicais dos bolcheviques na Rússia. É geralmente admitido que nos seus princípios, os sindicatos tiveram uma função importante na luta da classe operária. Os sindicatos na Rússia eram muito jovens e justificavam o entusiasmo de Lenin. Contudo, a situação era muito diferente nos outros países. De úteis e progressistas nos primeiros dias, os sindicatos tinham-se transformado nos velhos países capitalistas em obstáculos à libertação dos operários. Tinham-se tornado instrumentos da contrarrevolução, e a esquerda alemã tinha tirado conclusões desta evolução.

O próprio Lenin viu-se obrigado a constatar que com o tempo se tinha constituído uma camada “de aristocracia operária exclusivamente corporativista, arrogante, suporte do imperialismo, pequeno-burguesa, corrupta e degenerada”. É esta guilda da corrupção, esta direção de bandidos que está hoje à cabeça do movimento sindicalista no mundo e vive nas costas dos trabalhadores. Era a esse movimento sindical que a ultra-esquerda se referia quando pedia aos trabalhadores para o abandonarem. Lenin, contudo, avançava demagogicamente o exemplo do jovem movimento sindical russo o qual não partilhava as características dos velhos sindicatos dos outros países. A partir de uma experiência específica, correspondendo ao um período dado e a circunstâncias particulares, ele achava possível tirar conclusões aplicáveis à escala mundial. A partir da sua argumentação, o revolucionário deve sempre estar onde se encontram as massas. Mas onde estão elas realmente? Nos escritórios dos sindicatos? Nas reuniões de aderentes? Nos encontros secretos entre dirigentes sindicais e representantes do Capital? Não, as massas estão nas fábricas, nos seus locais de trabalho, e é lá que é necessário tornar eficaz a sua cooperação e reforçar a sua solidariedade. A organização da fábrica, o sistema dos conselhos, tal é a organização autentica da revolução, que deve substituir todos os partidos e sindicatos.

Nas organizações de fábrica não há lugar para os profissionais de direção; já não há separação entre chefes e subordinados, distinção entre intelectuais e simples militantes. É um quadro que desencoraja as manifestações de egoísmo, o espírito de rivalidade, a corrupção e o filistinismo. É aí que os operários devem tomar conta dos seus assuntos.

Mas para Lenin, tudo era diferente. Ele queria manter os sindicatos; transformá-los a partir do interior, substituir os funcionários social-democratas por outros, comunistas; substituir uma má burocracia por uma boa. A má satisfazia-se na social-democracia, a boa no bolchevismo. Entretanto vinte anos de experiência demonstraram a estupidez de uma tal concepção. Seguindo os conselhos de Lenin, os comunistas tentaram todos os métodos possíveis para reformar os sindicatos. O resultado foi nulo. Nula igualmente a sua tentativa para constituir os seus próprios sindicatos. A concorrência sindical entre social-democratas e bolcheviques eram uma concorrência na corrupção. Nesse mesmo processo, as energias revolucionárias dos operários consumiram-se em lugar de concentrarem as suas forças para lutarem contra o fascismo, os operários pagaram o custo de uma experiência absurda e vã para proveito de diversas burocracias. As massas perderam a confiança em si próprias, e nas “suas” organizações. Sentiram-se enganadas. Os métodos típicos do fascismo: ditar cada passo aos operários, impedir o despertar da iniciativa, sabotar todo o embrião de consciência de classe, desmoralizar as massas por derrotas sucessivas, e torná-las impotentes, todos esses métodos já tinham sido provados ao longo dos vinte anos de trabalho executado nos sindicatos segundo os princípios bolcheviques. A vitória do fascismo foi tanto mais fácil quanto os dirigentes operários nos sindicatos e nos partidos tinham já modelado para ele o material humano capaz de se adaptar ao seu molde.

​V

Sobre a questão do parlamentarismo, Lenin aparecia igualmente como defensor de uma instituição política ultrapassada, tornada obstáculo da evolução política e um perigo para a emancipação proletária, os ultra-esquerda combatiam o parlamentarismo sob todas as sua formas. Recusavam participar nas eleições e não respeitavam as decisões parlamentares. Lenin, contudo, consagrava muitas energias à atividade parlamentar e atribuía-lhe grande importância. A ultra-esquerda declarava o parlamentarismo historicamente ultrapassado, mesmo como simples tribuna de agitação, e não via nele senão uma perpétua fonte de corrupção tanto para os parlamentares como para os operários. O parlamentarismo adormecia a consciência revolucionária e a determinação das massas, veiculando ilusões de reformas legais. Nos momentos críticos, o parlamento transformava-se numa arma da contrarrevolução. Era preciso destruí-lo ou, melhor ou pior, sabota-lo. Era preciso combater a tradição parlamentar na medida que ela tinha ainda uma função na tomada de consciência proletária. Para provar o contrário, Lenin criou uma astuciosa distinção entre as instituições ultrapassadas historicamente e as instituições ultrapassadas politicamente. Seguramente, o parlamentarismo, argumentava ele está ultrapassado historicamente, mas não politicamente, e por isso é um fato com que é preciso contar. É preciso participar no parlamento porque ele tem ainda uma função política. Que argumento! O capitalismo, também ele, apenas está ultrapassado historicamente. Segundo a lógica de Lenin, não é pois possível combatê-lo de uma maneira revolucionária. Convirá muito mais encontrar um compromisso. O oportunismo, a traficância, o manobrismo político – tais seriam as consequências da tática de Lenin. A monarquia, também ela, tem ainda uma função política. Segundo Lenin, os operários não teriam o direito de a suprimir mas deveriam elaborar uma solução de compromisso. O mesmo seria para a Igreja, à qual, aliás, pertencem largas camadas do povo. Um revolucionário, insistia Lenin, deve estar onde estão as massas. A coerência obrigá-lo-ia pois a dizer: “Entrem na Igreja pois esse é o vosso dever revolucionário”. E, enfim, há o fascismo. Um dia virá em que também o fascismo será um anacronismo histórico mas não político. Que fazer então? Aceitar a evidência e concluir um compromisso com o fascismo. Segundo o raciocínio de Lenin, um pacto entre Stalin e Hitler provaria somente que Stalin é, na realidade, o melhor discípulo de Lenin. E não seria absolutamente surpreendente que num futuro próximo, os agentes bolcheviques glorifiquem o pacto entre Moscovo e Berlim como a única tática revolucionária.

A posição de Lenin sobre a questão do parlamentarismo apenas é uma prova suplementar da sua incapacidade para compreender as necessidades e características fundamentais da revolução proletária. A sua revolução é inteiramente burguesa; trata-se de uma luta para conquistar a maioria, para assegurar as posições governamentais e colocar a mão sobre o aparelho legislativo. Ele julgava realmente importante ganhar tantos votos quanto possível quando das campanhas eleitorais, ter uma importante fração bolchevique nos parlamentos, contribuir para determinar a forma e o conteúdo da legislação, participar na direção política. Não notava que nos nossos dias o parlamentarismo não passa de um simples “bluff”, uma ilusão de óptica, e que o verdadeiro poder da sociedade burguesa se situa em esferas completamente diferentes; que, a despeito de todas as derrotas parlamentares possíveis, a burguesia deterá ainda meios suficientes para impor a sua vontade e interesses nos setores não parlamentares. Lenin não via os efeitos desmoralizantes do parlamentarismo sobre a massas, não notava o efeito debilitante da corrupção parlamentar sobre a moral pública. Os políticos parlamentares corrompidos receavam pelo seu futuro. Houve uma época, na Alemanha pré-fascista, em que os reacionários podiam fazer passar no Parlamento não importa que lei ameaçando simplesmente provocar a sua dissolução. Que ameaça mais terrível para os parlamentares que implicava o fim dos seus rendimentos fáceis! Para evitar isso, eles estavam prontos a tudo. E será diferente hoje na Alemanha, Rússia e Itália? Os fantoches parlamentares não têm qualquer opinião, qualquer vontade, eles não passam de servidores dos seus patrões fascistas. Não há dúvida que o parlamentarismo está inteiramente degenerado e corrompido. Mas porque é que o proletariado não pôs fim à deterioração de um instrumento político que antes tinha utilizado para os seus fins? Suprimir o parlamentarismo por um ato de heroísmo revolucionário teria sido muito mais útil e instrutivo para a tomada de consciência proletária que não o é a miserável comédia a que chegou o parlamentarismo na sociedade fascista. Mas uma tal atitude era basicamente estranha a Lenin, como o é hoje a Stalin. O cuidado de Lenin não era libertar os operários da sua escravidão mental e física. Ele não estava preocupado com a falsa consciência das massas nem com a sua auto-alienação enquanto seres humanos. O problema, para ele, resumia-se a um problema de poder. Como um burguês, ele pensava em termos de ganhos e perdas, de mais e menos, crédito e débito; e todas as suas evaluações de homem de negócios apenas diziam respeito a fenômenos externos: número de aderentes, número de votos, lugares nos parlamento, postos de direção. O seu materialismo é um materialismo burguês, raciocinando sobre mecanismos e não sobre seres humanos. Lenin não é capaz de pensar realmente em termos sócio-históricos. Para ele, o parlamento é o parlamento: um conceito abstrato no vazio, revestindo o mesmo significado em todos os países e épocas. Certamente, ele reconhecia que o parlamentarismo atravessa diversas fases evolutivas, e assinala-o na sua argumentação, mas não aplica esta constatação nem na sua teoria nem na sua prática. Nas suas polêmicas a favor do parlamentarismo, brande o exemplo dos primeiros parlamentos do período ascendente do capitalismo, para não ficar sem argumentos. E ataca os parlamentos degenerados, fá-lo do ponto de vista dos parlamentos de criação recente, contudo ultrapassados desde há muito tempo. Em resumo, decide que a política é a arte do possível, embora para os operários a política é a arte da revolução.

​VI

Resta analisar a posição de Lenin sobre a questão dos compromissos. Durante a Guerra Mundial, a social-democracia alemã vendeu-se à burguesia. Contudo, a despeito dela, era herdeira da revolução alemã. Isso foi possível, numa larga medida, graças à Rússia que teve a sua parte de responsabilidade na eliminação do movimento alemão dos conselhos. O poder que tinha caído nos braços da social-democracia foi desperdiçado em pura perda. A social-democracia limitou-se a renunciar através da sua velha política de colaboração de classes, satisfeita em partilhar o poder com a burguesia nas costas dos trabalhadores durante o período de reconstrução do capitalismo. Os operários radicais alemães opuseram a esta traição o “slogan”: “Sem acordos com a contrarrevolução”. Tratava-se aí de um caso concreto, de uma situação específica, que indicava uma decisão parcelar. Lenin, incapaz de reconhecer os verdadeiros problemas, fez desta questão concreta um problema abstrato. Com os ares de um general e a infalibilidade de um cardeal, tentou convencer os ultra-esquerda que os compromissos com os adversários políticos são, em todas as circunstâncias, um dever revolucionário. Lendo hoje as passagens do panfleto de Lenin que tratam dos compromissos, não se pode deixar de aproximar as observações feitas por Lenin em 1920 e a atual política de compromisso conduzida por Stalin. Não há um único defeito mortal da teoria bolchevique que se não tenha tornado realidade sob Stalin. Segundo Lenin, os ultra-esquerda deveriam ter assinado o Tratado de Versalhes. Contudo o partido comunista, sempre de acordo com Lenin, concluiu um compromisso com os hitlerianos e protestou a seu lado contra esse mesmo tratado. O “nacional bolchevismo”, pregado na Alemanha pelo oposicionista de Laufenberg. Em 1919, foi criticado por Lenin, como um “absurdo gritante”3. Mas Radek e o partido comunista, seguindo sempre os princípios de Lenin, concluíram um compromisso com o nacionalismo alemão, protestaram contra a ocupação da bacia do Ruhr e celebraram o herói nacional Schlageter1. A SDN era, para retomar os termos de Lenin, “um bando de ladrões capitalistas e bandidos” que os operários deviam combater com a máxima energia. Contudo, Stalin, seguindo a tática de Lenin elaborou um compromisso com esses mesmos bandidos e a URSS entrou na SDN. O conceito de “povo” (Folk) é para Lenin uma concessão criminosa feita à ideologia contrarrevolucionária de pequena-burguesia. Isso não impede os leninistas Stalin e Dimitrov de realizarem um compromisso coma a pequena-burguesia para lançar o movimento idiota das “Frentes Populares”. Aos olhos de Lenin, o imperialismo era o maior inimigo do proletariado mundial, e contra ele era preciso mobilizar todas as forças. Mas Stalin, como perfeito leninista, uma vez mais, está muito ocupado a tramar uma aliança com o imperialismo hitleriano. Será preciso mais exemplos? A experiência histórica ensina-nos que todos os compromissos feitos entre a revolução e a contrarrevolução apenas podem trazer proveito a esta última. Toda a política de compromisso é uma política de bancarrota para o movimento revolucionário. O que tinha começado como um simples compromisso com a social-democracia alemã, conduziu a Hitler. O que Lenin justificava como um compromisso necessário conduziu a Stalin. Diagnosticando como “doença infantil do comunismo” a recusa revolucionária dos compromissos, Lenin sofria da doença senil do oportunismo, o pseudo-comunismo.

​VII

Analisada de um ponto de vista crítico, a descrição do bolchevismo traçada no panfleto de Lenin apresenta as seguintes características principais:

1. O bolchevismo é uma doutrina nacionalista. Concebido na origem, essencialmente para resolver um problema nacional, ela viu-se mais tarde elevada ao nível de uma teoria e uma prática de alcance internacional, e de uma doutrina geral. O seu caráter nacionalista é também posto em evidência pelo seu apoio às lutas de independência nacional levadas a cabo por povos colonizados.

2. O bolchevismo é um sistema autoritário. O cume da pirâmide social é o centro de decisão determinante. A autoridade é encarnada na pessoa toda-poderosa. No mito do chefe, o ideal burguês da personalidade encontra a sua mais perfeita expressão.

3. Organizacionalmente, o bolchevismo é altamente centralizado. O comitê central detém a responsabilidade de toda a iniciativa, instrução ou ordem. Os dirigentes da organização têm a função da burguesia; a única função dos operários é a de obedecer às ordens.

4. O bolchevismo é uma concepção ativista do poder. Pensado exclusivamente como a conquista do poder político, não se diferencia das formas de dominação burguesas tradicionais. Mesmo no seio da organização, os membros não gozam de autodeterminação. O exército serve ao Partido como modelo de organização.

5. O bolchevismo é uma ditadura. Utilizando a força brutal e métodos terroristas, orienta todas as funções em direção à eliminação das instituições e correntes de opinião não bolcheviques. A sua “ditadura do proletariado” é uma ditadura de uma burocracia ou de uma única pessoa.

6. O bolchevismo é um método mecanicista. A ordem social que visa é fundada na coordenação automática, a conformidade obtida pela técnica e o totalitarismo mais eficazes. A economia centralmente “planificada” reduz estreitamente as questões socioeconômicas a problemas técnico-organizacionais.

7. A estrutura social do bolchevismo é de natureza burguesa. Ele não elimina absolutamente o sistema de salariato e recusa a apropriação pelo proletariado dos produtos do seu trabalho. Fazendo-o, continua e fundamentalmente no quadro das relações de classe burguesas, e perpétua o capitalismo.

8. O bolchevismo apenas é um elemento revolucionário no quadro de uma revolução burguesa. Incapaz de realizar o sistema soviético, ele é, por isso mesmo, incapaz de transformar radicalmente a estrutura da sociedade burguesa e a sua economia. Não é o socialismo que instaura mas sim o capitalismo de Estado.

9. O bolchevismo não é uma etapa de transição que provocaria posteriormente a sociedade socialista. Sem o sistema dos sovietes, sem a revolução radical e total dos homens e das coisas, não pode preencher a exigência socialista primordial, que é a de pôr termo à alienação humana engendrada pelo capitalismo. Ele representa a última etapa da sociedade burguesa, e não o primeiro passo em direção a uma nova sociedade.

Estes nove pontos demonstram uma oposição irreconciliável entre o bolchevismo e o socialismo. Eles ilustram, com toda a clareza necessária, o caráter burguês do movimento bolchevique e o seu parentesco próximo com o fascismo. Nacionalismo, autoritarismo, centralismo, direção do chefe, política do poder, reino do terror, dinâmicas mecanicistas, incapacidade de socializar – todos esses traços fundamentais do fascismo existiam e existem no bolchevismo. O fascismo não passa de uma simples cópia do bolchevismo.

Por esta razão, a luta contra o fascismo deve começar pela luta contra o bolchevismo.

[1] Stalin proclamava Lenin “o genial mecânico da locomotiva da história”. Encontram-se múltiplos exemplos desta concepção mecanicista na prosa bolchevique, e em todos os domínios.

[2] Sobre a política dos ultra-esquerda no que respeita aos sindicatos e o parlamento, ver: Pannekoek et les Conseils Ouvriers, H. Gorter, Réponse à Lenin, (N.T.F)

[3] Laufenberg (1872-1932). Um dos organizadores da oposição de extrema-esquerda em Hamburgo. Laufenberg e Wolfheim tinham pregado desde Outubro de 1918 “a tese da necessária transformação da revolução em guerra revolucionária popular contra os imperialistas da Aliança, unidos com a Rússia soviética” Cf. Pierre Broué, Revolução na Alemanha, Ed. de Minuit, 1971 (N.T.F)

[4] O nacionalista Schlageter tinha sido fuzilado pelas tropas francesas quando da ocupação do Ruhr. Deu o seu nome à campanha dirigida pelo KPD para atrair elementos nacionalistas pequeno-burgueses influenciados pela propaganda fascista. (N.T.F.)

Fonte: [https://bibliotecaanarquista.org/library/otto-ruhle-a-luta-contra-o-fascismo-comeca-pela-luta-contra-o-bolchevismo?v=1622844000]




[Espanha] A tese de ecologia social de M. Bookchin e os princípios de gestão de bens comuns de E. Olstrom são compatíveis?

Por José M. Domínguez D.

A ecologia social proposta pelo pensador americano Murray Bookchin é, como seu nome sugere, uma corrente que argumenta que a crise climática é, acima de tudo, uma crise social. “A mensagem mais fundamental que a ecologia social traz é que a própria ideia de dominar a natureza decorre da dominação do humano pelo humano” (Bookchin, 2009: 73). E, portanto, as soluções não podem passar pela tecnociência, nem pelo crescimento verde, mas somente por uma mudança estrutural do sistema socioeconômico. Trata-se, portanto, de modificar um sistema socioeconômico existente no qual alguns seres humanos exercem opressão sobre outros e veem a natureza como um território de conquista. É assim que o professor Alfredo Marcos o descreve, 2001:

Para a ecologia social e o eco-feminismo, as causas da crise ecológica são principalmente de natureza prática. Eles devem ser procurados mais em relações sociais incorretas do que em uma visão incorreta do mundo. São as relações de domínio que existem em nossas sociedades que geram problemas ambientais” (P. 141).

O ecologismo social buscaria uma solução para a terrível situação atual em que a natureza e a sociedade estariam reharmonizadas, alcançando uma eco-sociedade que é regida por uma série de princípios que também podemos encontrar na própria natureza: não-hierárquica, mutualismo, unidade na diversidade…. Princípios que significariam uma mudança total de perspectiva e uma verdadeira revolução que, como já dissemos, mudaria o atual sistema socioeconômico (cf. Bookchin, 2019: 33 e seg.).

A Ecologia Social é, portanto, uma filosofia holística com uma perspectiva interdisciplinar que traz em jogo o estudo da natureza e a implementação dos princípios que dela derivam. Não é, portanto, apenas uma proposta teórica acadêmica, mas, sobretudo, um apelo à ação que olha e coloca em diálogo o passado, o presente e o futuro para alcançar – dialeticamente – uma sociedade mais justa e reharmonizada com a natureza a que pertence, como apresentado pelo próprio Bookchin, 2019:

A ecologia, em termos gerais, é sobre o equilíbrio da natureza. Na medida em que a natureza inclui a humanidade, é a ciência que trata basicamente da harmonização entre natureza e humanidade” (P.11).

Um dos maiores problemas existentes hoje é que a relação entre sociedade e natureza é vista de forma hierárquica: sociedade acima e natureza dominada. E, do mesmo modo, alguns membros da sociedade se impõem sobre outros: homens dominando as mulheres, classes altas dominando as classes baixas, e assim por diante. A tal ponto que estas hierarquias são institucionalizadas e levadas ao extremo no atual sistema capitalista, a ecologia social, entretanto, realiza uma proposta dialética na qual a sociedade humana re-harmoniza com a natureza, alcançando uma eco-sociedade e pondo um fim às dominações internas e externas existentes.

Princípios de ecologia social que servem como estrutura teórica para as teses da Ostrom.

Assim, Bookchin propõe uma série de princípios que ele descobre na natureza e que ele postula como princípios ético-políticos que devem governar uma nova sociedade. Não se trata de estabelecer uma teoria de direito natural como a que surgiu em outros momentos históricos, através de manipulações, para realizar o colonialismo ou para estabelecer um darwinismo social. Longe disso, a ecologia social está em uma postura dialética que descobre fatores positivos na natureza (Bookchin, 2019: 29-56):

  •  – Não hierarquia
  •  – Mutualismo
  •  – Evolução
  •  – A unidade dentro da diversidade
  •  – Espontaneidade

É precisamente estes princípios observados por Bookchin que acreditamos que podem ser colocados em relação aos princípios de Ostrom, e que servem como base teórica para eles:

 – Não hierarquia

Este princípio assume que na natureza avançamos por relações simbióticas: há uma interdependência total de alguns seres e outros, assim como uma eco-dependência. Além disso, na perspectiva de Bookchin, a hierarquia não pode sequer ser dada na natureza, pois ele entende por hierarquia um “termo estritamente social” (Bookchin, 1999: 45), aquele sistema institucionalizado de controle e ordem que, em última instância, faz uso da força coercitiva de forma física para obter obediência (Cfr. Bookchin, 1999: 44-46). Desta forma, descobrimos também que ela pode ser aplicada aos princípios de Ostrom, já que a organização coletiva da RUC [recursos de uso comum] é necessariamente não hierárquica: o estabelecimento de leis e seus arranjos ocorrem entre iguais e coletivamente.

– Mutualismo

Desta forma, as soluções para os problemas contemporâneos de governança dos bens comuns que encontramos na economista americana, além das ideias hierárquicas de privatização ou de estatização, podem passar por sistemas de apoio mútuo entre os apropriadores. Não se trata de um retorno ao primitivismo, mas de aplicar os princípios de apoio mútuo e não-hierarquia (reconhecendo a interdependência e a eco-dependência) que permitem evoluir, de forma criativa, sustentável e solidária (Cfr. Bookchin, 1999: 105). Além disso, ao contrário da concorrência, na “história da evolução da vida, a cooperação entre unidades menores deu origem ao surgimento de estruturas mais complexas”. Neste sentido, a cooperação é essencial para gerar estruturas mais complexas” (Nowak & Sigmund, 2000: 21).

 – Evolução

A natureza está constantemente mudando e evoluindo para sistemas mais complexos. Da mesma forma, as instituições dos RUC têm que rever constantemente suas leis a fim de melhorar as condições comuns de trabalho e as relações sociais dentro da comunidade.

– Unidade dentro da diversidade

Vemos como os organismos têm sua própria autonomia e funcionamento. Apesar de os componentes dos organismos serem tão diversos, eles dependem uns dos outros e evoluem juntos, autorregulando-se. Desta forma, as comunidades dos RUC, além do individualismo que querem impor-lhes a partir das visões da economia clássica, partem desse mutualismo que só pode acontecer se houver uma unidade dentro da diversidade dos apropriadores. Apesar de terem uma pluralidade de opiniões e modos de agir, os apropriadores se reúnem e decidem sobre um modus operandi comum que realizam de forma unificada. Da mesma forma, quando os RUCs fazem parte de sistemas maiores, Ostrom adverte que deve haver várias entidades escalonadas que têm suas próprias regras internas mas atuam em comum, como uma grande comunidade cooperativa (Ostrom, 2011: 163).

– Espontaneidade

Assim como a natureza não segue regras, mas cresce e se desenvolve imprevisivelmente, “a variedade surge espontaneamente” (Bookchin, 2019: 45); as instituições do povo não seguem padrões impostos por nenhum agente externo, mas suas leis internas surgem espontaneamente entre os apropriadores, e atendem às necessidades da localidade em que estão localizadas e às suas próprias potencialidades.

Em resumo, a questão que Bookchin propõe é avançar para sociedades onde estes princípios são implementados e servem como um ponto de orientação. A ecologia social é a criação de uma utopia, ou seja, um lugar aonde ir, um projeto coletivo.

A fim de colocá-lo em prática é necessário:

(a) Aumentar os grupos e movimentos sociais que protestam e conscientizam sobre o quão injusto e prejudicial é o sistema atual (Cfr. Bookchin, 2019: 221-281).

b) Criar alternativas ao sistema que reflitam os novos princípios: municípios colaborativos, cooperativas, bairros de apoio mútuo, grupos coletivos para administrar os bens comuns e os recursos naturais para uso comum, federação global dos bens comuns, etc. (Cfr. Bookchin, 2019: 139-156).

Muitas são as vias a serem exploradas diante de grandes mudanças socioeconômicas, e as propostas de Murray Bookchin, que podem servir de base filosófica para a teoria econômica de Ostrom, são urgentes dado o estado avançado da crise ambiental e social na qual estamos imersos.

Referências:

BOOKCHIN, M., 1999. Ecologia da liberdade. Madri: Nossa y Jara.

_____ 2019. Ecologia e pensamento revolucionário. Mallorca: Calúnias.

_____2019. A próxima revolução. Barcelona: Vírus.

MARCOS, A., 2001. Ética Ambiental. Valladolid: Ediciones Universidad de Valladolid.

OSTROM, E., 2011.El gobierno de los bienes comunes. Cidade do México: Fondo de Cultura Económica.

Fonte: http://www.ridaa.es/ridaa/index.php/ridaa/article/viewFile/232/228

Tradução > Liberto