A Cognição Bolsonarista

Fascismo, Misticismo e Deficiência Cognitiva

“Ambivalente, ao mesmo tempo radical e conservador” (BERNARDO, 2015, p. 13)

“Na relutância em se identificarem com quem ganhava a vida numa fábrica, as camadas intermédias em crise manifestavam o apego aos valores tradicionais e a recusa de uma situação social potencialmente subversiva, opondo-lhe uma vocação de ordem. (BERNARDO, 2015, p. 216)”

“(…) não crê que os homens sejam iguais, nem que sejam naturalmente bons (…). Rejeição a democracia por se caracterizar por um regime de fraqueza dominado pelos grupos de pressão (a velha política) que é incapaz de salvaguardar os interesses nacionais; rejeita o sistema parlamentar que não passa de um jogo estéril alheio às necessidades da nação.“ (MICHEL, 1977, p. 14)

João Bernardo, ensaísta português é autor das duas primeiras frases. Elas cabem muito bem na caracterização do movimento bolsonarista no Brasil, muito embora tenham sido escritas em sua tese de doutorado de 1.998. À época Bolsonaro cumpria seu segundo de sete mandatos de Deputado Federal, ano em que protagonizava na TV aquela lamentável declaração sobre ser a favor da tortura, a defesa de uma Guerra Civil, fechamento do Congresso e a morte de pelo menos 30 mil, inclusive de Fernando Henrique Cardoso. A frase seguinte foi escrita pelo historiador francês Henri Michel em 1.977, período em que Bolsonaro era ainda militar, mas já pensava em candidatar-se a vereador no RJ, embora estivesse respondendo a um inquérito disciplinar no exército.

Hoje, o bolsonarismo se alia a um movimento mundial que tem como características um nacionalismo difuso centrado no etnocentrismo, lealdade cega a valores e costumes religiosos (mesmo repleto da mais alta hipocrisia), cultura do medo e da violência, rejeição a toda postura ou comportamento que desvie de seus valores e, sobretudo: a ideia de superioridade moral a partir de uma identidade (religiosa ou racial) que define os chamados “homens de bem” e o restante das gentes que, invariavelmente, representam o mal, o inferior e aqueles que precisam ser silenciados ou eliminados da vida social. Mais do que isso, tem como guru, mentor “intelectual” e conselheiro rasputiniano, o astrólogo Olavo de Carvalho.

O dado central nessa questão é que, obviamente, nem Henri Michel, e tampouco João Bernardo estavam tentando descrever ou conceituar o neoconservadorismo atual no mundo e muito menos em especial o do Bolsonarismo. Ambos os autores estavam a definir o fascismo do início do século XX. Como uma macabra repetição da história dos anos 20 e 30 do século passado, pós Primeira Grande Guerra e pós-queda da bolsa de valores de Nova York, assistimos estupefatos o século XXI dar voz a uma legião de personalidades autoritárias e reacionárias que surge de forma avassaladora pós-crise do capitalismo em 2008.

O quão distante estão o neoconservadorismo atual e as condições de possibilidade para a emergência do fascismo no início do século XX? É preciso traçar algumas breves palavras que mostrem suas distâncias e aproximações antes de cumprirmos nosso objetivo com esse texto, que é avaliar a capacidade cognitiva do bolsonarismo.

Ao indicar Ernesto Araújo como chanceler do Estado brasileiro no governo Bolsonaro, Olavo de Carvalho sabia o que estava fazendo. Araújo, olavista, havia servido na Embaixada do Brasil em Washington entre 2010 e 2015 e exercia o cargo de diretor do Departamento de Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos. Poderíamos pensar que fosse óbvio alguém que já estava nos EUA ser escolhido como chanceler em virtude das pretensões de Bolsonaro em alinhar a política externa brasileira com os interesses estadunidenses, mas a coisa é muito mais profunda do que parece.

Em 2017, em um artigo intitulado “Trump e o Ocidente” publicado na revista Cadernos de Política Exterior do Itamaraty e recomendado no Twitter por Olavo de Carvalho, Araújo celebra Trump (recém-eleito em 2016) como aposta em um resgate do conceito de pátria, família e Deus no Ocidente contra o tal “globalismo”. No resumo do artigo, lemos:

O presidente Donald Trump propõe uma visão do Ocidente não baseada no capitalismo e na democracia liberal, mas na recuperação do passado simbólico, da história e da cultura das nações ocidentais. A visão de Trump tem lastro em uma longa tradição intelectual e sentimental, que vai de Ésquilo a Oswald Spengler, e mostra o nacionalismo como indissociável da essência do Ocidente. Em seu centro, está não uma doutrina econômica e política, mas o anseio por Deus, o Deus que age na história. Não se trata tampouco de uma proposta de expansionismo ocidental, mas de um pan-nacionalismo. O Brasil necessita refletir e definir se faz parte desse Ocidente. (ARAUJO, 2º Semestre de 2017, p. 323)

Com discursos contra o chamado “marxismo cultural”, contra teorias de gênero e a esquerda em geral, Araújo cita René Guénon, autor ocultista francês que exalta a Idade Média como início das “nacionalidades”, renega a Idade Moderna como decadente e propõe o tradicionalismo ou perenialismo com o suíço-alemão Frithjof Schuon. Cita também Steve Bannon e Julius Evola.

Guénon é influência direta tanto de Olavo de Carvalho quanto de Steve Bannon, guru de Trump até sua posse. Bannon, em 2014, em um congresso no Vaticano, citou Julius Evola, místico seguidor de Guénon e também proponente da chamada Filosofia Tradicionalista ou Perenialismo, defendida por Olavo de Carvalho e que inspirou o fascismo italiano e o nazismo alemão. Hoje os livros de Guénon e Evola estão como leituras sugeridas pelo partido neonazista grego Aurora Dourada e são cultuados pela alt-right estadunidense e, especialmente, por seu principal representante, o supremacista branco Richard Spencer, que considera Evola a “figura mais fascinante do século XX”. Spencer, por ocasião da vitória de Trump nas eleições disse: “Hail Trump, Hail our people, Hail victory”…

Segundo João Bernardo, Evola teria afirmado em seu livro que:

(…) no Terceiro Reich se atingira uma forma mais perfeita de corporativismo do que no fascismo italiano, porque se estabelecera a solidariedade orgânica entre os patrões e os trabalhadores no interior de cada empresa. (Julius Evola in Men among the Ruins. Postwar Reflections of a Radical Traditionalist — Homens entre ruínas. Reflexões pós-guerra de um tradicionalista radical) Apud in (BERNARDO, 2015, p. 44–45)

Apesar disso, Evola insiste que é um homem sem partido, que não é fascista e nem nazista.

Que pese o fato que Olavo, mesmo tendo seguido os passos de Guénon e participado de uma Tariqa islâmica, hoje o critica pela dedução lógica acerca de suas pretensões sobre submeter o catolicismo e o Ocidente ao islamismo no futuro. No entanto, ele continua admirando e indicando a leitura de Guénon a seus discípulos, justamente para se compreender suas consequências e inspirar a luta contra a decadência do ocidente, inspirando brasileiros tanto quanto Bannon inspira o mundo nessa revitalização neonazifascista que assistimos.

Iremos nos aprofundar futuramente em textos específicos sobre essas questões, trazendo, inclusive, a polêmica figura de Alexander Dugin a todo esse cenário, mas por enquanto sugerimos assistirem dois vídeos que passam indiretamente por esse e outros assuntos relacionados. Um é nosso vídeo sobre o Desafio do Leite e a Janela de Overton. O outro é do canal parceiro Anarquia Audiovisual: As mentiras sobre 2013 e o obscurantismo da nova direita.

A Cognição Bolsonarista

Quando fizemos o vídeo da série “Pensadores” sobre Jean Piaget, além do interesse no pensamento desse grande educador, um dos objetivos era também a compreensão mais ampla dos estágios que o ser humano atravessa até as condições do pleno uso de nossas capacidades cognitivas. Não foi sem espanto que ao nos depararmos com o estagio 3, Operacional (ou de Operações Concretas), a percepção foi de que estávamos diante da exata descrição de como Bolsonaro e seus correligionários enxergam e lidam com o mundo.

Ao que tudo indica, esse estágio é propício na formação de crenças e certezas no entorno de ações objetivas em resposta a problemas que aquele que crê precisa solucionar. No livro “Fascismo: definição e história”, da Historiadora anarquista Luce Fabri, que viveu de perto os horrores do fascismo italiano, o fascismo é explicado como fenômeno de massa, até então não compreendido desta forma pela própria esquerda antifascista que reduzira sua análise a uma questão de classes sob a ótica marxista. Fabri une tanto o rescaldo desesperançoso do pós-guerra quanto o sentimento nacionalista e patriótico exaltado como antídoto e catalisador do entorpecimento causado nas massas, que aceitaram ser comandadas por tamanho disparate moralista e violento. Ela percebeu tanto como historiadora quanto como testemunha da história que:

O fascismo foi essencialmente o produto de um medo feroz de todos os que usufruíam de uma situação mais ou menos estável — não relacionada totalmente com um trabalho produtivo, ou de um prestígio baseado em uma escala tradicional de valores — diante de uma enigmática revolução [socialista] que parecia inevitável. (FABRI, 2019, p. 12)

A construção de um ideário em torno de um marxismo cultural, de um globalismo, da ameaça de islamização ou do “golpe comunista”, funciona como terrorismo ideológico que constrói a percepção daquilo que atinge diretamente e imediatamente as pessoas. No caso do Brasil, essa retórica serviu de argamassa ideológica para a interpretação do que muitos viviam ao fim do desastrado governo petista após o Impeachment de Dilma Roussef.

Portanto, não se trata apenas das teorias conspiratórias que Bennon, Olavo de Carvalho, Alexander Dugin estão propagando com base no mesmo misticismo perenialista que inspirou o nazifascismo do século XX, mas também de um certo tipo de mentalidade e estágio cognitivo que tornaria as pessoas propensas e suscetíveis a encontrar uma possível explicação e uma suposta solução a seus problemas mais imediatos e urgentes.

Como funciona o estágio 3, operacional, segundo Piaget?

Mais do que as competências que o estágio operacional confere à criança (idealmente dos 7 aos 12 anos de idade), é importante saber quais competências ainda lhes faltam essencialmente. Embora nesse estágio já se tenha noção da reversibilidade de suas ações, ou seja, as consequências imediatas de seu comportamento no mundo externo, sua consciência só alcança a dimensão empírica e imediata do mundo. Sua capacidade de abstração é reduzida ao seu universo empírico e ainda não lhe é possível construir abstração sobre abstrações. Embora tenha ultrapassado o solipsismo da fase anterior, seu mundo cognitivo se reduz a si próprio e ao seu entorno concreto, suas experiências diretas. É um mundo auto-referente baseado no conforto e desconforto imediato. Apesar de conseguir distinguir seu ponto de vista do outro, por ser incapaz de construir abstrações mais complexas, lhe falta empatia sobre experiências que vão além de sua experiência concreta e direta.

Esses fatos tornam a pessoa propensa a acreditar em mentiras ou meias-verdades desde que estas confirmem suas crenças ou tenham como fonte seu entorno familiar ou social (viés de confirmação). Tendem a superestimar o que acreditam saber e a menosprezar conhecimentos que não alcançam, podendo ser agressivos contra o que desconhecem (efeito Dunning-Krueger).

Como dissemos no vídeo sobre Piaget, quando crianças nesse estágio são criadas em ambientes autoritários, que silenciam, invisibilizam, menosprezam e recalcam o indivíduo, seu desenvolvimento fica comprometido para adaptá-la ao próximo estágio, formando um sujeito reativo, congelado em suas próprias opiniões e, por vezes, violento em defende-las diante de sua dificuldade de compreender outros pontos de vista que requerem uma abstração para além de sua história pessoal.

Portanto, quando assistimos Bolsonaro garantir seu prazer em dirigir alterando leis de trânsito que salvavam vidas, quando assistimos ele negar o INPE sobre o desmatamento da Amazônia porque os dados não atendiam a crença necessária para suas intenções políticas, quando assistimos ele afirmar que só há pesquisa científica em universidades particulares só porque ele desconhece que 90% de toda pesquisa científica brasileira é feita dentro de universidades públicas, ou por fim, quando nos deparamos com sua relativização sobre uma pandemia mundial que já matou mais de 60 mil brasileiros porque ele não quer ter déficit público, ficamos realmente na dúvida se o presidente do Brasil é um mitômano ou se seu desenvolvimento cognitivo é reduzido e rudimentar.

À gravidade dessas constatações podem ser somadas a apuração do site Aos Fatos que trouxe mais de 1.000 declarações falsas ou distorcidas que Bolsonaro deu em menos de 500 dias de governo.

Seu séquito de cegos confiantes no messias não se informa, mas segue de maneira fanática tudo o que ele e sua máquina de propaganda virtual propaga de fakenews e desinformação. A partir do momento em que ele deu voz a uma série de teorias conspiratórias que propõem uma Nova Ordem Mundial arquitetada por poderosos bilionários comunistas, nada do que o mundo diz tem valor, apenas seus desejos pessoais e o que ele estabelece que é certo.

Percebemos com pesar que não só Bolsonaro se encontra no Terceiro Estágio do desenvolvimento cognitivo de Piaget, como conseguiu amealhar seguidores fiéis e fanáticos no mesmo estágio. O Fenômeno bolsonarista reuniu de maneira inimaginável pessoas confinadas no estágio de desenvolvimento cognitivo de crianças de 12 anos, sem que isso signifique que crianças de 12 anos sejam mentirosas, mas que, dependendo de sua criação e dos estímulos externos a que são submetidas, elas não conseguiriam entender o mundo à sua volta sem que tivessem alguma experiência direta e concreta com aquilo que diz conhecer. O mais grave, porém, é a facilidade com que essas pessoas reduzem o mundo tão somente àquilo que precisam que seja verdade; o que significa falsear a realidade como se as coisas que desconhecessem simplesmente não existissem ou fossem fruto de mentiras de pessoas do mal que querem desviá-las da verdade.

Pessoas que se confinam no Estágio Operacional Concreto, mesmo que ao longo do tempo desenvolvam certa capacidade de abstração e raciocínio lógico-formal, instrumentalizam suas habilidades para a reafirmação do que caracteriza o estágio em que estão confinadas. Dessa forma são capazes de construir malabarismos retóricos para justificar um mundo próprio, estabelecido por seus parâmetros de auto-referência e sem a menor capacidade crítica ou, muito menos, de auto-crítica.

Robert Paxton, que se propôs a descrever a anatomia do fascismo, em seu livro homônimo diz:

A radical instrumentalização da verdade adotada pelos fascistas explica porque razão eles nunca se deram ao trabalho de escrever obras casuísticas nas ocasiões em que alteravam seu programa, o que acontecia com frequência e sem o menor escrúpulo. (PAXTON, 2007, p. 41)

É importante salientar, porém, que essas pessoas não são burras ou irracionais. Sequer, em si mesmas, podem ser consideradas inteiramente más. Elas são incapazes. Todos os seres humanos, em certa medida, são incapazes de diversas coisas, atitudes, pensamentos ou alcances cognitivos. O que difere essas pessoas de todas as outras que tentam levar a vida conscientes de suas limitações e abertas a ampliarem seus horizontes, é que essas pessoas já se pensam salvas, prontas ou, minimamente, no caminho correto da verdade, do justo e do belo. Com essa crença inabalável e com a auto-estima inflada, sentem-se no direito de falsear a realidade, de inventar mentiras, destruir pessoas, discriminar e ofender, pois se veem defendendo o que é mais caro, não apenas para si, mas para a própria humanidade. Não há erro mais crasso do que aqueles cometidos por voluntariosos incompetentes, assim como não há regime totalitário e genocida que não tenha partido da pressuposição arrogante do monopólio da virtude e da moral por parte de seus membros.

Fizemos o impensável. Colocamos o que é de mais tosco, despreparado e ignóbil a comandar uma nação de mais de 210 milhões de seres humanos. Uma horda de 50 milhões de incompetentes voluntariosos se vê espelhada no que é mais vil, com a crença de que seus problemas estarão resolvidos e de que essa criatura tem uma missão que vai ao encontro de suas necessidades e desejos. Faltam-lhes questionar a verdade que se apresenta a elas na figura do presidente, mesmo que seja muito sedutor pensar que “conhecendo a verdade, ela nos libertará”. Talvez seja impossível conhecer a verdade. Talvez. Mas não é de todo difícil saber o que não é a verdade, mesmo que ela se apresente misturada com ignorância ou distorções intencionais, também conhecidas como mentiras, mas vendida por “conhecimento oculto”.

O que torna toda essa batalha mais árdua e complexa é o revestimento místico, a atribuição de um propósito maior e a demonização dos contrários que as teorias de conspiração constroem para dar força a uma mera falha cognitiva transformada em liderança. Bolsonaro acredita em seus próprios delírios ao mesmo tempo em que é instrumentalizado para um plano de poder maior que cedo ou tarde esmagará o efeito Dunning-Krueger de que é vítima.

O que nos resta? Iremos tentar mapear as possibilidades em outro vídeo. Por enquanto fiquemos com essas constatações.


Assista ao vídeo em nosso canal:

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