A Filosofia da Catástrofe

Cientistas e profissionais de saúde de todo o globo terrestre nos alertam acerca da necessidade de isolamento, distanciamento social e uso de máscaras na contenção da proliferação do SARS-CoV2 – causador da COVID-19 – e suas variantes cada vez mais perigosas. Por algum motivo (suspeito que se trata do viés cognitivo de confirmação) as pessoas parecem acreditar muito mais em discursos desqualificados que dizem o contrário do que todo conhecimento acumulado que daria respaldo ao que a ciência diz.

Talvez coubesse aqui uma análise sobre em que momento histórico a humanidade desenvolveu a capacidade de acreditar somente naquilo que confirma ou reforça seu código de crenças ou desejos, mas o objetivo desse texto é outro. Para além do viés de confirmação, há uma ausência de reflexão que dê conta do quanto somos responsáveis (ou deveríamos ser) pelo futuro o qual muitos de nós sequer viverá.

Quando se pensa em quanto estamos sendo irresponsáveis mantendo o nível de consumo atual e o quanto a produção necessária a esse nível de consumo degrada o ambiente e promove o aquecimento global, isso tudo nos parece muito distante. Afinal qual ética seria esta que se preocupa com entes fictícios sem realidade física ou jurídica por não participar de nosso próprio tempo? Quem são esses do futuro pelos quais devemos nos preocupar no presente e mudar nossa própria atitude?

Infelizmente, na Filosofia Ocidental as preocupações ético-políticas não alcançam o futuro. Talvez porque herdamos a concepção de tempo linear dos hebreus, pastores, em contraposição ao tempo cíclico agrícola. Ou então, já sob a égide do capitalismo incipiente, o Iluminismo se colocou quase como um porta-voz do progressismo que crê, necessariamente, em um amanhã sempre melhor do que hoje. Será que é por isso que estamos nos destruindo e permanecemos passivos e apáticos só lutando por um eterno agora imediato?

Wendell Barry, poeta, ensaísta e ativista ambiental, provavelmente inspirado pelos mitos ameríndios escreveu:

Nós não herdamos o mundo de nossos antepassados, nós o pegamos emprestado dos nossos filhos.

Barry, Wendell.

Embora essa máxima nos leve a uma concepção cíclica de tempo, é na temporalidade linear que, talvez, ela ganhe mais força, já que nos obriga a pensar nessa obrigação que temos com nossa descendência, senão consanguínea, pelo menos de espécie. Se nos esforçarmos mais, vital: responsabilidade pela vida. A Terra, como condição essencial para toda a vida que conhecemos, é um empréstimo a nós concedido pela vida futura, que já vive em algum lugar, em nossos sonhos, em nossos planos de um mundo melhor do que esse.

Mesmo já tendo lido ou ouvido essas reflexões ainda insistimos em não levá-las à prática, a incorporá-las em nosso comportamento individual e, muito menos, coletivo. Pouco se fala para além da superação das estruturas dadas em nossa sociedade. E a questão real, concreta, é exatamente essa. Se por um lado o capitalismo se tornou hegemônico ao ponto de se tornar metafísico e estruturante de um comportamento imediatista e egoísta fincado no aqui e no agora, sua alternativa mais famosa, co-protagonista, mesmo depois da ruína da ex-URSS, se ampara no amplo desenvolvimento do capitalismo para se tornar socialismo. Se o Brics tivesse dado certo entre Brasil, Rússia, Índia e China, estaríamos acelerando nosso tempo consideravelmente e talvez mal o mundo vivesse o tão sonhado socialismo internacional.

A urgência é outra. É uma nova forma de vida e socialização que ao invés de aumentar as forças produtivas ad eternum, as arrefeça, as diminua, e inaugure um consumo consciente, responsável, solidário… E isso só irá acontecer na destruição do capitalismo e do Estado que o sustenta e sustentaria seu opositor que se vê herdeiro de seu legado.

Uma nova mentalidade urge, mais minimalista, menos megalomaníaca, mais direta, simples e ética: preocupada fundamentalmente com o não-ser do futuro, da vida em abstrato. Se já vivêssemos algo próximo a isso, o número de mortes pela COVID-19 seria muito reduzido, pois não dependeria do que queremos agora – no possível imposto por uma realidade dada – mas de como lidaríamos com o luto antecipado de quem nos rodeia, com o futuro. E o futuro só será melhor se agirmos em função dele agora, solidários, amorosos e engajados.

A Filosofia da Catástrofe pensa o futuro pior possível para se refletir sobre a ética necessária para evitá-lo. Só não pode confundi-la com teorias conspiratórias, já que estas inventam um futuro catastrófico para exercer poder sobre o agora e moldar mentes e corpos. E nisso se inclui o pensamento religioso escatológico e salvacionista.

A metafísica da Filosofia da Catástrofe concebe o tempo como um laço recíproco no qual presente e futuro se determinam mutuamente. Não pode haver ação presente – e sua reflexão ética correspondente – sem se pensar que ela deve ser, também, determinada pelo não-ser de um futuro possível. Trata-se de uma metafisica diametralmente oposta ao imediatismo do capitalismo acumulativo e privado protegido juridicamente por um Estado corruptível por essência. Para isso, mais do que uma antropologia em termos kantianos, que coloca cada geração melhor com base no aprendizado da sabedoria criada pela geração anterior, a Filosofia da Catástrofe deverá olhar para as gerações futuras de forma imaginativa para conseguir captar o que devemos desenvolver e como devemos agir desde o agora.

Isso significa ruptura com o passado, ruptura com a continuidade melhorada do fatalismo que nos aguarda. Toda melhoria proposta ao sistema atual, sob todos os ângulos, significa apenas adiarmos o inevitável. Olhar para o futuro requer uma razão objetiva nos termos de Adorno e Horkheimer, superando a razão meramente instrumental que transforma as estruturas atuais em uma realidade dada e intransponível. Significa olhar para o possível desejável e não para um passado determinista, cuja lógica é a reprodução de um mecanismo cego e impessoal de submissão das pessoas e destruição do planeta.

A Filosofia da Catástrofe é a filosofia do Antropoceno, período ou era histórica definida pelo prêmio Nobel de química Paul Crutzen que marca a atuação humana no planeta. Até esse momento a Terra se autogeria de forma homeostática, o que significa que, mesmo diante da ações externas (cósmicas, por exemplo), o sistema terreno impunha seu equilíbrio interno e o mantinha relativamente estável. O surgimento do ser humano, apesar de breve (se considerarmos a história do planeta como 24 horas, a história humana seriam 20 segundos), não apenas mudou drasticamente o planeta, mas vem danificando de forma muito rápida seu equilíbrio homeostático. Chegará o ponto em que a Terra não conseguirá mais voltar: será o colapso, a catástrofe. Tudo promovido por uma única espécie. A única também capaz de reverter e rever seus próprios atos.

Se você gostou dessas provocações, comente, curta e compartilhe. Agrademos.

Não esqueça de nos ajudar nesse trabalho se tornando um colaborador. Basta clicar aqui e ver as formas de contribuir.


Assista ao vídeo-ensaio desse texto em:

image_pdfPDF Exportarimage_printImprimir

Deixe um comentário...

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: