Abdullah Öcalan – Nação Democrática

Autor: Abdullah Öcalan
Título: Nação Democrática
Data: 2016
Notas: Publicado por: Iniciativa Internacional “Liberdade para Abdullah Öcalan — Paz no Curdistão”
Fonte: ocalanbooks.com

PREFÁCIO

A International Initiative “Liberdade para Abdullah Öcalan — Paz no Curdistão” esforça-se não só para publicar as obras de Abdullah Öcalan em diferentes idiomas, mas também para preparar brochuras compiladas a partir de diferentes livros dele sobre temas específicos. Isto é útil e necessário não só porque reúne a cadeia de argumentos sobre um tópico específico espalhado por vários livros, mas também porque algumas das suas obras ainda não estão traduzidas. Por conseguinte, esta brochura deve ser considerada apenas como um enquadramento e não pode substituir a leitura dos próprios livros.

Öcalan tem sido altamente crítico não só do capitalismo, mas também das práticas do «socialismo real» desde cedo, na década de 1980. Examinou a questão da liberdade das mulheres, os fenômenos do poder e do Estado e a sua interligação. Isto levou-o repetidamente a voltar a uma análise da história para tentar entender como é que tudo aconteceu. Ao fazê-lo, tropeçou sobre a nação, o estado e o estado-nação e como estes são prejudiciais para qualquer movimento; transformando até mesmo os indivíduos mais revolucionários em meros exercitantes do capitalismo.

Para Abdullah Öcalan não basta produzir crítica e autocrítica. Ele sente-se compelido a expor o que poderia constituir uma alternativa ao modo de vida que está a ser imposto à sociedade. Desta forma, esforça-se por sistematizar as vidas e as lutas de todas e todos os oprimidos e explorados ao longo da história, bem como propor um modelo alternativo e um modo de vida exterior à modernidade capitalista e, portanto, exterior à civilização clássica.

Estas brochuras tornam-se cada vez mais importantes à luz dos desenvolvimentos na região assim como no Curdistão. Com o reavivamento do conflito sectário e nacionalista em muitas regiões do mundo e com as consequências de um capitalismo agressivo enfrentando o mundo, as propostas de Öcalan e um esforço evidente para implementá-las em Rojava e Bakur podem ser justamente a solução certa para a região atingida pela guerra. Ele apela para que todos os organismos construam e defendam a vida livre e a humanidade.

A voz de Öcalan é extremamente importante como voz de paz e razão, mas é muitas vezes silenciada pelo seu confinamento na ilha isolada de Imrali, onde está preso. A sua liberdade é do interesse de todos os povos do Médio Oriente — não só dos curdos. International Initiative Liberdade para Abdullah Öcalan — Paz no Curdistão”

1. INTRODUÇÃO

A luta do PKK até agora visava essencialmente tornar visível a questão curda. A negação da realidade curda durante o tempo da sua formação trouxe naturalmente a questão da existência para a agenda . Assim, o PKK tentou primeiro provar a existência da questão, por meio de argumentos ideológicos. A continuação desta negação pela esquerda através de métodos mais refinados colocou na agenda organizarmo-nos com base em identidades e ações distintas.
O estado-nação turco — que insistiu em políticas tradicionais de negação e aniquilação — recusou-se a considerar a possibilidade de uma solução política durante este período. Pelo contrário, optou por combater as iniciativas do PKK com uma campanha de terror fascista que levou ao golpe de estado de 12 de setembro. A declaração do PKK de uma guerra popular revolucionária surgiu como a única opção viável. Nestas condições, o PKK iria ou desaparecer aos poucos, como os outros grupos de esquerda democrática na Turquia, ou escolher a resistência. O fator decisivo para a transformação da questão curda de uma questão de identidade ideológica para uma questão de guerra é a insistência do Estado em manter políticas anteriormente dissimuladas de negação e aniquilação através do terror exposto do 12 de Setembro. Seria mais realista analisar a ofensiva de 15 de Agosto de 1984 no contexto desta abordagem. Tal jogada está muito mais próxima do objetivo de provar a existência do povo curdo e proteger a sua existência do que de ser um movimento de libertação. Convém salientar que, neste respeito, alcançou um êxito significativo.

O PKK, embora provasse a existência curda sem margem para dúvidas, permaneceu enraizado na ideologia do estado-nação. O período de autocrítica que se seguiu revelou a essência anti-socialista e anti-democrática da ideologia do estado-nação. A rápida dissolução do «socialismo real» na década de 1990 contribuiu para uma compreensão mais profunda dos fatores subjacentes à depressão. A dissolução do «socialismo real» foi causada pelas problemáticas do poder e do estado-nação «socialista real». Para ser mais preciso, a crise do socialismo foi o resultado de uma compreensão inadequada do problema do poder e do Estado. Quando as contradições de Estado e do poder, tão marcadas pela questão curda, se uniram à crise global mais ampla do socialismo real, tornou-se inevitável uma análise abrangente da questão do Estado e do poder.

Com este fim, numa parte significativa da minha defesa, tento analisar o Estado e o poder ao longo da história civilizacional. Concentrei-me em apresentar a transformação do fenômeno do Estado e do poder no contexto da modernidade capitalista — a civilização hegemônica atual. Eu afirmei especificamente que a transformação do poder no estado-nação era a base do capitalismo. Esta foi uma tese importante. Tentei demonstrar que, na ausência da organização do poder através do modelo do estado-nação, o capitalismo não se poderia ter tornado no novo sistema hegemônico. O estado-nação foi a ferramenta fundamental que tornou possível a hegemonia capitalista. Por isso, procurei provar que o socialismo, enquanto anti-capitalismo, apresentando-se como aquilo a que chamo de “sociedade-histórica”, não se podia estabelecer com base no mesmo modelo de Estado, ou seja, como um estado-nação «socialista real». Tentei mostrar que a ideia de que o socialismo, tal como proposto por Marx e Engels, só poderia ser construído através de estados-nação centrais, era, de facto, um defeito fundamental do socialismo científico. Prossegui a apresentar a tese de que o socialismo não poderia ser construído através do Estado, especialmente o estado-nação, e que uma insistência nisso só poderia resultar nas versões mais degeneradas do capitalismo, como experimentado em muitos casos, mas especialmente no socialismo real da Rússia e China. Como um precursor necessário desta tese, analisei o sistema de civilização centralizada ao longo da história, o conceito de poder e a estrutura do estado e do poder da modernidade capitalista, que é a estrutura predominante única à nossa era. A minha principal conclusão foi que as e os socialistas não podiam ter um princípio de estado-nação. Pelo contrário, a solução para a questão nacional deveria basear-se no princípio da nação democrática. A expressão prática disto, como tentarei demonstrar, é a experiência da KCK — União das Comunidades Democráticas no Curdistão.

Leia o texto completo em: https://bibliotecaanarquista.org/library/abdullah-ocalan-nacao-democratica

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