Alfredo M. Bonanno – Alguns Erros Teóricos Muito Comuns

Autor: Alfredo M. Bonanno
Título: Alguns Erros Teóricos Muito Comuns
Notas: Titulo Original: Some very common theoretical errors. Tradução e Revisão por André Tunes @Nucleo de Estudos Autonomo Anarco Comunista.
Ela não possui direitos autorais pode e deve ser reproduzida no todo ou em parte, além de ser liberada a sua distribuição, preservando seu conteúdo e o nome do autor.
Fonte: lib.anarhija.net

A exploração da classe operária se dá de duas formas precisas que se articulam por meio de um complexo sistema de cumplicidade: a primeira é a direta, realizada pela burguesia nacional. A segunda é indireta, exercida pela burguesia de outras nações.

Essa repartição, entretanto, não é baseada em um conceito étnico de nação. A exploração interna não é realizada pela burguesia nacional no papel de representantes étnicos do poder, mas como representantes políticos dos centros de gestão do poder centralizado. Ou seja, todos os Estados que existem hoje, na Europa por exemplo, provêm de um núcleo primitivo e preponderante que foi gradativamente, ao longo da história, incluindo e dominando os núcleos periféricos politicamente e militarmente mais fracos.

Na Espanha, foi Castille que o pôs em prática. Na França, o norte sujeita as províncias do Sul. Na Grã-Bretanha, os Ingleses dominam os Galeses, os Escoceses e os Irlandeses. Na Alemanha, é a Prússia que realiza essa tarefa, submetendo os pequenos estados Alemães, Dinamarqueses e Poloneses e até mesmo províncias como a Alsácia-Lorena, objeto de discussões intermináveis com a França. O mesmo fenômeno ocorreu na Rússia: os Grandes-Russos dominam os Romenos, Finlandeses, Lituanos e Poloneses. Na Áustria, um grupo de Alemães coalizados impõe domínio sobre Gregos e Eslovacos, Magiaris, Poloneses e Italianos, pelo menos até 1918.

O processo de formação dos grandes Estados modernos caracterizou-se, portanto, por uma série de imposições externas. As unidades étnicas são destruídas, obrigadas a se submeter à centralização administrativa e com isso a exploração se agrava.

Este não é o tipo de conclusão a que chegam os marxistas. Eles, pelo contrário, pensam que a função do monarca dos estados absolutos foi progressiva. Engels escreve: “Uma vez que as fronteiras foram formadas entre os grupos linguísticos, era natural para eles fornecer a base para a formação de estados e para que as nacionalidades comecem a se desenvolver em nações. O rápido colapso de um Estado de etnia mista como a Lotaríngia mostra a importância desse elemento já no século IX. É verdade que o período medieval estava longe de coincidir os limites linguísticos e territoriais; ainda, cada grande nacionalidade, com a exclusão da Itália, foi representada na Europa por um Estado particular de extensão considerável e cada vez mais clara e consciente, e a tendência de criar estados nacionais no período medieval constitui um dos instrumentos mais essenciais de progresso …” (F. Engels, Uber den Verfall des Feudalismus und das Aufkommen der Bourgeoisie, em Marx-Engels, Werke, vol XXI, pp 395 e sgg, citado por I. Fetscher, Il Marxismo, Milão 1970 vol III pp. 62–63). Em oposição a essas teses, Kropotkin escreve: “… não importa o quanto o desenvolvimento do Estado no modelo da Roma imperial tenha posto fim violentamente a todas as instituições de ajuda mútua da época medieval, este novo aspecto da civilização não pode durar. O Estado, baseado na vaga agregação de indivíduos e apenas em laços de união, não alcança esse fim. Então, a tendência de ajuda mútua quebra as leis de bronze do estado …” (P. Kropotkin, Mutual aid), e Bakunin: “Esses precursores (os Estados enfraquecidos) devem entender qual era sua fraqueza no passado, e que sua incapacidade de formar um Estado constitui sua força hoje, seu direito a um futuro, e dá sentido a todos os movimentos nacionais presentes”. (M. Bakunin, State and anarchy)

A função reacionária e centralizadora da emergência e do fortalecimento dos Estados poderosos é muito clara na situação em que se encontra a Sicília. No momento da passagem dos Bourbons para os Piemonteses, houve um aumento incrível da pressão fiscal. O total do imposto territorial passou de 50 para 70 milhões em 1866, enquanto o Centro e o Norte pagam 52 milhões entre eles. A venda de bens eclesiásticos trouxe ao estado unitário cerca de 600 milhões, embora houvesse mais gastos públicos no norte do que no sul. O Estado unitário gastou cerca de 92 milhões na Lombardia para obras hidráulicas e 1.333.296 milhões de liras na Sicília. A média nacional per capita desses custos é de 19,71 liras, enquanto na Sicília é de apenas 0,37 liras. Muito se falou sobre o grande gasto da ferrovia na Sicília: no período de 1861–1898 cerca de 479 milhões foram gastos, enquanto em todo o território nacional o investimento nacional foi de 4 bilhões – 76 milhões.

O problema da libertação nacional como tal não pode ser realmente compreendido se não for colocado nesta perspectiva de dupla exploração. Se se perder este fio quando se fala da burguesia local, porque ela se encontra agindo de forma étnica, o sentido da luta de classes se perde, caindo da frigideira para o fogo.

Não é verdade que a burguesia local faça menos reivindicações do que a externa. Toda a burguesia é a mesma. A homogeneidade de classe dos explorados não pode destruir-se a partir de uma concepção separatista, deve-se antes inserir-se dentro de uma ótica revolucionária, restabelecendo os princípios gerais da luta de classes que vem da base, uma luta contra a exploração que se faz em nome do povo, não em nome de uma casta interna e indígena.

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