Aquele chão não se pisa

Desenho: Pés e Pássaros — Aline Brasil

Aquele chão não se pisa. Disseram-me uma vez. Então pisei!

Eu nunca soube o que pensar, o que sentir, o que fazer. Era um segredo só meu. Por outro lado, uma liberdade da cor do céu azul de um dia ensolarado. Eu era criança. E pra sempre seria. De lá pra cá eu me detenho diante das denúncias, diante do emaranhado daquilo que sempre fui: um corpo errante. Tão incapaz de ser gente, tão incapaz de manter o sorriso no rosto, incapaz de jogar. Mas eu pisei aquele chão e até hoje sinto o frio duro que marcou os meus pés. Eu sei, embora sobre nada eu possa falar.

Aqui estou em minha mesa. Meu gato canta como um mosquito. Ele não sabe o que faço. Nem eu entendo o que lhe passa. De todo modo somos um. E lá fora, o vento me recorda os momentos de outra época, em que eu ouvia histórias a luz de velas e fazia sombras na parede. Nunca quis crescer. Talvez, nunca quis ser gente. Mas pisei o chão proibido e disso ninguém sabe. O vento faz despencar folhas imensas das árvores e elas ferem a terra. Eu sinto nas mãos. E da janela pareço ouvir o mar. Por que o vento e o mar são iguais?

Disseram-me tantas coisas, eu ouvi tanto que esqueci de tudo. Mas o chão eu sinto nos meus pés. Ele me marcou pra sempre. Frio, duro e molhado. Chovia, sabe?

Silêncio!

Tem uma coisa que me deixa inquieta nesta história toda. Eu não sei do que se trata. Por outro lado sei de tudo. Esse saber que não sabe, esse não saber que sabe, é nisso que me movo e de repente encontro o que já antevia. Não é milagre, é tão palpável, tão preciso e concreto que o mundo riria. Fariam piada. Fazem e fizeram o tempo todo. Ali, séria, eu apenas olhava. E fazia de tudo o que tocava a minha pele, a minha fuga secreta. De novo o chão. O chão sempre retorna.

Cada pedaço de mim fala de algo novo, de algo recriado. Eu sei. Inventar histórias cansa. Então tem momentos em que desisto, abro mão. E quase acredito no meu sono. Mas eu não durmo. Simplesmente eu espero. Fixo um ponto enquanto mundo inteiro gira em torno dele. Pra mim tudo está estático e a minha respiração é tão densa quanto o dia mais úmido e chuvoso que o planeta nos fez sentir.

O ponto fixo, o chão, o frio, o úmido. Tudo o que sempre me amparou.

É claro que às vezes a explosão acontece. Aí o corpo não tem parâmetros e eu danço imersa no nada. E, talvez, esta seja a coisa mais coerente do mundo.

Aquele chão… Disseram-me: não pise… então… pisei…


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