Rodrigo Barchi – As ecologias políticas e infernais do Red and Anarchist Black Metal

Autor: Rodrigo Barchi
Título: As ecologias políticas e infernais do Red and Anarchist Black Metal
Data: 14/04/2018
Fonte: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/as-ecologias-politicas-e-infernais-do-red-and-anarchist-black-metal-2/

 

As ecologias políticas e infernais do Red and Anarchist Black Metal

Rodrigo Barchi [1]

Para citar esse artigo utilize o artigo original publicado na Revista ClimaCom:

BARCHI, Rodrigo. As ecologias políticas e infernais do Red and Anarchist Black Metal. ClimaCom – Ecologias Radicais [Online], Campinas, ano 5, n. 11, abr. 2018. Disponível em: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/as-ecologias-politicas-e-infernais-do-red-and-anarchist-black-metal-2/

Expecting half with nothing to find
Like a lighthouse, a wild nothing moved to an empty place
Tended embers of life fires, envelop, something wide and moral
It takes and leaves, flicker, heavy, growing, leeched

(God Alone – do conjunto RABM Altar of Plagues)


“This forest is my home”, she said quietly, /”I feel best when I’m among trees.
Open country seems alien to me. Our chimp ancestors had the right idea.
Among trees you’re safe, you can be free”. This with a mysterious smile.

(Ecotopia – Ernest Callenbach)

Os ruídos das ecologias

Há várias ecologias que gritam. Em seus berros, elas rompem, recusam, indisciplinam, fluem, invertem, anarquizam e infernam… São ecologias, pois apesar de seus discursos monstruosos, anormais, caóticos e insubordinados, elas lutam para se manter vivas, para dinamizar sua constante produção dos dissensos, dos múltiplos, das legiões diabólicas que desprezam as univocidades e homogeneizações dos sentidos da vida. Brigam e vociferam em suas potências e vitalidades que são constantemente assediadas e ameaçadas pelos agentes das utopias castradoras das possibilidades férteis e desviantes no pensamento.

Se para a criação do pensamento é preciso perverter/inverter/reverter o ideal ascético do platonismo ocidental (DELEUZE, 2006a; 2006b) e as especificidades hierarquizantes e excludentes das profundidades disciplinares, potencializar a ecologia como criadora de novas relações vitais exige perverte-la (BARCHI, 2016). E ao extremo. A ecologia como maquiagem da destruição, auxiliar das predações desenfreadas e genocidas das cosmovisões não padronizáveis, é uma ecologia de morte e, portanto, refuta a si própria. Submetê-la aos “bons modos” das sociedades contemporâneas – negativamente autofágicas – e condicioná-la aos horrores dos micro e macrofascismos ascendentes é destituí-la de tudo aquilo que a tornou, um dia, uma rebelde revolucionária no pensamento.

Como romper com a lógica das ecologias higienistas, puristas e pastorais, cujo salvacionismo repete os equívocos de escolher entre os bons e os maus, de hierarquizar saberes, de divinizar certas práticas “ecologicamente corretas”, que na verdade não fazem quase que diferença nenhuma perante o holocausto, passado, presente e porvir?

Este texto busca, junto aos conjuntos de um estilo que é conhecido como Red and Anarchist Black Metal, discutir a possibilidade de se pensar em ecologias infernais. Diabólicas no sentido de perverter o pensamento, de dividir as alianças niilistas entre céu e terra, e anarquizar as ordens restritivas dos pseudo paraísos transcendentais. O texto aborda alguns indícios da presença da ecologia na música extrema, mais especificamente o a música Metal dos anos 80. Apresenta também as origens do estilo Black Metal, e sua dissidência cascadiana, para depois abordar os discursos e perspectivas ecológicas dessa vertente.

A presença das ecologias nas origens da música extrema

O diabo se transformou em uma figura evidente da resistência infernal a partir dos anos 1980, de maneira veemente e amplamente difundida pelo globo na (anti)música e no visual das bandas de heavy metal e suas vertentes mais brutais, a partir dos anos oitenta. Apesar de bandas como Black Sabbath, Judas Priest e Led Zepellin, nos anos 1970, constantemente flertarem com a temática satânica em algumas letras, o diabo se tornou explícito e aberto com primeiro disco da banda britânica Venom, intitulado Welcome to Hell, lançado em dezembro de 1981. Influenciado pelas três bandas citadas, mais o Motorhead, o Venom resolveu fazer um heavy metal ainda mais pesado, sujo, direto, rápido e cru. E, ao contrário das bandas dos anos 70, eles explicitaram e evocaram a abertura dos portais do inferno.

Os títulos das músicas são, mais do que sugestivos, diretos e explícitos: Sons of Satan, Welcome to Hell, In League with Satan, Angel Dust e One Thousand Days in Sodom. A capa, com a cabeça de bode integrada ao pentagrama invertido, combinava o orgulho do pertencimento às hordas de demônios e bruxas que saiam do inferno à meia-noite para roubar a alma das crianças e a paz das pessoas, com a resistência à civilização cristã ocidental e suas práticas condutoras que visava à salvação do fogo do inferno, a perdição.

Se, nos anos 1970 o diabo somente aparecia em momentos sugestivos, na calada da noite, para falar ao ouvido dos tentados, a escancarada dada pelo Venom possibilitou que uma onda de bandas que apareceu nos anos 1980 se comparasse justamente às guerrilhas bestiais e monstruosas que viriam a horrorizar, de certa forma, as sociedades dos países capitalistas ocidentais, já que o movimento, apesar de ter aparecido pontualmente nos países europeus e na América do Norte, se espalhou rapidamente pelo mundo, sendo que em países como o Brasil, o apelo e a popularização do metal ocorreram também em meados dos anos 1980.

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