BOLSONARO-ARAÚJO e o efeito DUNNING-KRUGER

Jair Bolsonaro e Ernesto Araujo

Muitos pensadores ao longo da história se debruçaram sobre a questão do conhecimento. Mas esse texto não é, exatamente, sobre epistemologia, embora a tangencie. A questão que queremos colocar aqui é: até que ponto (e sob quais consequências), é possível ter consciência de nossa própria ignorância?

Confúcio, pensador Chinês que viveu há 5 séculos antes de nossa era teria dito:

“O verdadeiro conhecimento é saber a extensão da ignorância de alguém”

Pouco tempo depois, Sócrates, Filósofo grego, teria questionado o próprio oráculo de Delphos, após a consulta de Querofonte que o colocara como o Homem Mais Sábio da Terra, com a frase: “Só sei que nada sei”.

Nietzsche foi enfático em dizer sobre os inimigos da verdade:

“Convicções são inimigos mais perigosos da verdade do que mentiras” e Darwin, com sua minuciosa observação sobre a vida natural, desferiu: “A ignorância gera mais confiança do que o conhecimento”.

Porém, talvez, nenhum outro pensador tenha sido tão enfático e direto como Bertrand Russell, Filósofo, Matemático e Lógico do sec.XX, que em um ensaio de 1933, chamado “O Triunfo da Estupidez”, escreveu:

“A fundamental causa dos problemas é que no mundo moderno os estúpidos estão cheios de certeza, enquanto os inteligentes estão cheios de dúvidas.”

Todos eles, a seus tempos, se referiram ao que mais tarde seria conhecido como VIÉS COGNITIVO DA SUPERIORIDADE ILUSÓRIA.


 

Numa fria manhã de janeiro de 1995, em Pittsburg, EUA, um homem de 45 anos, de 1,67 m de 122 kilos chamado McArthur Wheeler saiu de sua casa e cometeu dois assaltos a bancos, munido de uma arma e…. suco de limão… Foi sua inabalável certeza de que não seria reconhecido pelas câmeras de segurança dos bancos que fez com que ele se arriscasse nessa desastrosa aventura.

Por trás dessa certeza, um raciocínio lógico: se era possível escrever uma carta invisível com um pincel embebido em suco de limão, bastando expor o papel ao calor para revelar o conteúdo da carta, então seria possível ficar invisível passando suco de limão no rosto. Para ter certeza da exatidão de seu raciocínio, com os olhos e o rosto ardendo, Wheeler pegou sua polaroid e tirou uma selfie. A história não conta se ele posicionou mal a câmara ou não, mas o resultado da foto foi um borrão de flash onde não era possível identificar o conteúdo da foto. Era a prova que ele precisava.

Após ter a imagem das câmeras divulgadas, em pouco tempo a polícia bateu à sua porta. Sua reação deixou os policiais intrigados. Ele dizia, enquanto era algemado: “mas eu usei o suco… eu usei o suco”. Wheeler não conseguia compreender de que forma ele teria sido reconhecido após se utilizar de seu plano infalível.

Pouco tempo depois essa história bizarra foi publicada nos jornais da época e gerou piadas e chacotas, embora não trouxessem nenhuma foto de seu protagonista. Mas foi na Universidade de Cornell que o caso passou a ter uma outra abordagem para além da gozação. Dois PHDs em Psicologia Social radicados na Universidade, David Dunning e Justin Kruger, obviamente entre risos, indagaram como seria possível alguém acreditar em algo tão estúpido ao ponto de assumir atitudes e tomar decisões com base em uma ilusão? Ambos, então, começaram a fazer um estudo a partir de uma série de experimentos para entender melhor esse fenômeno. Embora seja algo relacionado ao “Vies de Confirmação”, o chamado efeito Dunning-Kruger vai além. A questão que os pesquisadores se impuseram foi: há algum nível de incompetência que impede o incompetente de perceber sua própria incompetência? O resultado da pesquisa foi revelador. Enquanto pessoas com habilidades e competências reais em determinadas áreas tendem a subestimar o quanto conhecem de fato sobre ela, quanto menos competentes são, há uma clara tendência das pessoas não só superestimarem o que sabem, ignorando o que não sabem, como subestimarem aos outros.

O estudo da dupla foi publicado em 1.999, no Jornal de Personalidade e Psicologia Social da Associação Americana de Psicologia, sob o título (traduzido): “Não Qualificado e Inconsciente disto: como as dificuldades em reconhecer a própria incompetência conduzem a uma auto-avaliação inflada”.

No resumo do artigo, eles dizem no início: “As pessoas tendem a ter visões excessivamente favoráveis ​​de suas habilidades em muitos domínios sociais e intelectuais. Os autores sugerem que essa superestimação ocorre, em parte, porque as pessoas que não são habilitadas nesses domínios sofrem um duplo ônus: não apenas essas pessoas chegam a conclusões errôneas e fazem escolhas infelizes, mas a sua incompetência rouba-lhes a capacidade metacognitiva de realizar isto (referindo-se à não fazer conclusões errôneas e escolhas infelizes).

Eles iniciam a introdução do artigo mencionando a bizarra história de McArthur Wheeler.

Ou seja, quanto mais ignorantes sobre algo, mais as pessoas tendem, por ignorância de sua própria incapacidade, a supervalorizar o conhecimento que possuem, fazendo-as tomar decisões equivocadas, atos irracionais e acreditar em falsificações como verdade.

A pressa em saber, a Vontade da Verdade (conceito cunhado por Nietzsche), cria convicções e certezas que, paradoxalmente, são altamente prejudiciais para aquilo que a própria pessoa deseja: o saber e a verdade. Por isso, e não por outro motivo, áreas de cunho científicos e filosóficos cultuam de maneira radical a dúvida e não a certeza. Porém, é bom lembrar, que a dúvida cultuada por áreas científico-filosóficas leva em consideração evidências e indícios. Ou seja, não se trata de um ceticismo turrão e intransigente (negacionita), mas um ceticismo metodológico que procura, antes de aceitar qualquer coisa, procurar sua refutação e sua corroboração no mundo, quase que invariavelmente, de forma empírica.


 

Quando ouvimos Bolsonaro citar o evangelho de João Capítulo 8, versículo 32, estamos diante de dois fatos importantes: 1) Que religião é um domínio de verdades reveladas para uma determinada cultura e exige certezas inabaláveis e 2) A fala transcrita de Jesus se refere a quem permanecer como seu discípulo, prometendo que, caso permaneça como tal, irá conhecer a verdade e ela o libertará. Mas qual seria essa verdade? Em nenhum momento Jesus discorreu sobre aquecimento global, fetos na Pepsi-cola, vacinação, formato da Terra ou se nazismo era de esquerda ou de direita. Ele falou sobre amor ao próximo, sobre perdoar, sobre viver em comunidade de forma mutualista e, sobretudo, que aquele que crer em sua palavra, a vida eterna. Por alguma razão oculta, Bolsonaro se diz cristão, mas odeia gays, movimentos sociais, quilombolas, é vingativo, individualista e quer dar palpite em domínios não religiosos cheio de convicções religiosas, ignorante da sua descomunal incompetência, seja como militar, deputado ou agora, como Presidente da República Federativa do Brasil.

Seria ele, juntamente com seu Chanceler (e grande parte de seus ministros e eleitores), vítimas do efeito Dunning-Kruger?

Ernesto Araújo, em uma entrevista para o Think Tank que propaga os delírios de Olavo de Carvalho, Brasil Paralelo, afirmou que o nazifascismo integra o espectro político-ideológico à esquerda. Como é possível ter essa convicção contra não apenas o consenso acadêmico mundial, mas contra o próprio país que originou o nazismo, contra o grupo que foi maior vítima do nazismo, os judeus, e contra o próprio líder nazista, Adolf Hitler, em seu livro Mein Kampf? O que torna para ele, para Bolsonaro, Olavo de Carvalho, Nando Moura e seus seguidores, bem como para boa parte das pessoas do mundo, plausível e correto esse revisionismo histórico?

Lembremos que Bolsonaro já afirmara uma série de coisas não só inverossímeis, como provadas mentirosas, como, por exemplo, o Kit Gay e, pasmem, afirmou em uma entrevista ao Roda Viva que os Portugueses sequer pisaram em África, pois os próprios povos africanos teriam sido os responsáveis pelo tráfico de escravos negros no continente.

O caso de Bolsonaro, Ernesto Araújo, Olavo de Carvalho e todos os que acompanham suas ideias e delírios, seus negacionismos históricos e demonização das ciências, da esquerda e dos organismos internacionais ligados aos direitos humanos e diversidade não parece ser explicado apenas a partir do efeito Dunning-Kruger. Este, parece-nos, se constitui um componente de algo muito mais bizarro e constrangedor, para não dizer, extremamente perigoso. O efeito Dunning-Kruger é um elemento fundamental desse processo, pois, de fato, todos eles parecem ser totalmente inconscientes daquilo que ignoram, e por conta disso, creem em absurdos e tomam decisões equivocadas que afetam, de maneira egoísta, a vida das pessoas.

Essa distinção é essencial, pois ela nos faz unir dois vieses cognitivos, o da CONFIRMAÇÃO e o da SUPERIORIDADE ILUSÓRIA. O Viés de Confirmação foi posto em evidência pelo Psicólogo Cognitivo Peter Wason em 1960, na University College, de Londres. Segundo seus estudos, foi possível postular que as pessoas têm a clara tendência de favorecerem imediatamente as informações que confirmem e validem seus preconceitos, crenças pessoais e hipóteses, independentes de serem verdadeiros ou não. Ou seja, se sua crença requer um fato que a corrobore, independente da existência real desse fato, é preciso criá-lo, seja através da deturpação da verdade, mudança de sentidos ou mesmo mentira.

Para além de Dunnung-Kruger e do viés de confirmação, o que une em fanatismo, mentiras, negações e reações agressivas toda essa gente é uma ideologia, a da extrema-direita. E por saberem disso é que precisam jogar o nazismo para a esquerda.

O célebre caso do Youtuber Nando Moura ficou clássico na plataforma. Respondendo a um Tweeter de Leon, do Canal Cadê a Chave, Moura fez um vídeo com várias ofensas e xingamentos (como é de seu feitio) indicando autores que corroborariam a tese do Nazismo de esquerda. Leon e Nilce consultaram os livros citados por Nando e, com educação exemplar, provaram que Nando sequer tinha lido os livros que citou, pois além de se utilizar, na verdade, do questionável e impreciso Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, do jornalista Leandro Narloch, nenhum dos autores citados, se lidos em suas respectivas fontes e livros, afirmara que o nazismo fora um regime de esquerda. Nando Moura não só teve a capacidade de inventar confirmações falsas necessárias para corroborar sua crença, pegando a primeira fonte duvidosa que tinha disponível, como arrogou para si uma superioridade de conhecimento que, definitivamente, não tinha. O mais impressionante é que, humilhado, não perdeu a pose e continuou com mais de 3 milhões de seguidores que, cegamente, o veneram.

Diante desse cenário, certas perguntas se impõem: essas pessoas são más, demoníacas, criminosas? Embora possam cometer maldades e crimes de diversas ordens, essas pessoas acreditam piamente que são boas e possuem a verdade sobre os fatos e, portanto, segundo João 8:32, estariam libertas. Isso, inclusive, lhes dão salvo conduto para espalhar o terror e inventarem as mentiras mais absurdas, desde que sejam necessárias para desacreditar aqueles que eles pensam estar mentindo ao questionar o que ouvimos de suas bocas.

Ao condenar, na mesma visita, aqueles que esquecem o passado, enquanto tenta modificar o passado para atender sua agenda ideológica, Bolsonaro desrespeita milhões de mortos pelo Holocausto Judeu. Inconsciente de sua ignorância, ele cai em contradição, negando a própria história do povo que o recebeu como Chefe de Estado.

Como denuncia Astrid Prange, jornalista da Deutsche Welle em seu artigo “Piorar, sempre Pode”, Bolsonaro comete deturpação histórica com fins políticos. Em seguida a jornalista diz:

“É trágico, é triste, é devastador. Mesmo depois da visita ao memorial Yad Vashem, em Jerusalém, um museu público em memória às vítimas do Holocausto, Bolsonaro parece não ter conseguido refletir sobre as consequências catastróficas do nazismo. Pelo contrário: usou o genocídio contra judeus como mais uma oportunidade de combater ‘os esquerdistas’ e o ‘socialismo’.

A tentativa de ressignificar o nazismo como um movimento de esquerda mostra que ele se inspira nos métodos de agitação de regimes totalitários: vender mentiras como verdade e criar um bode expiatório para todos os problemas de um país. O que eram os judeus para os nazistas alemães, são os “esquerdistas”, socialistas e comunistas para o presidente brasileiro.”

Em setembro de 2018, os seguidores do Bolsonaro fizeram o Brasil passar vexame ao questionarem a embaixada alemã acerca de um vídeo institucional lançado no Facebook que mostra como os alemães lidam com seu passado sem escondê-lo. A Alemanha estava fazendo exatamente o que Bolsonaro disse no Museu do Holocausto, negando-se a esquecer seu passado. O motivo do vexame? Brasileiros seguidores de Bolsonaro questionaram o país onde o próprio nazismo nasceu porque suas autoridades colocam esse regime como extrema-direita.

Isso foi espantoso para os alemães, especialmente para os que vivem aqui no Brasil, como o cientista político Kai Michael Kenkel radicado na PUC-Rio. Ele disse:

“Nunca tinha visto essa discussão sobre o nazismo ser de esquerda na Alemanha. Lá é muito simples: trata-se de extrema direita e pronto. Essa discussão sobre ser de esquerda ou direita parece existir só no Brasil. Se você perguntar para um neonazista na Alemanha se ele é de esquerda, vai levar uma porrada. Essa falsa polêmica demonstra que o ensino de história no nível básico é profundamente falho no Brasil. Também mostra uma profunda manipulação dos fatos e um desprezo pela verdade entre alguns setores no Brasil”

O embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, se pronunciou sobre o caso, dizendo que tal afirmação não tem bases honestas, mas objetivos desonestos. E é disso, exatamente, que se trata: desonestidade. Não só intelectual, mas ética também. Em alguns comentários chegou-se a utilizar o termo HOLOFRAUDE, fazendo a alusão de que o holocausto teria sido uma invenção judaica. Isso explica muita coisa, embora crie uma verdadeira esquizofrenia quando notamos gangues neonazistas brasileiras apoiando radicalmente Bolsonaro e rechaçando a esquerda, ou quando o líder da Ku Klux Klan, o estadunidense David Duke, que esteve nas passeatas neonazistas em Charlottesville, declara, referindo-se a Bolsonaro: “ele soa como nós”.

Por ocasião da fala de Araújo, da reação dos eleitores bolsonaristas ao vídeo da embaixada alemã e a fala desastrosa de Bolsonaro em pleno Museu do Holocausto, a emissora pública alemã Deutsche Welle entrevistou vários historiadores alemães e, mais uma vez, passamos um vexame internacional por conta da desonestidade flagrante do atual governo brasileiro e seus seguidores.

“Basta uma rápida olhada nas origens do movimento nazista para descartar completamente a ideia de que o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) fosse de esquerda.” (Historiador Jürgen Zarusky, do Instituto para História Contemporânea Munique-Berlim)

“O rótulo ‘socialista’ e o tom amigável ao trabalhador ajudaram Hitler a ganhar amplo apoio entre essa parcela da população” (Paul-M. Rabe, do Centro de Documentação de Munique para a História do Nacional-Socialismo)

Para além do Viés Cognitivo da Superioridade Ilusória (enquanto efeito posterior) e do Viés de Confirmação (enquanto aspecto basilar do efeito Dunning-Kruger), há, ao que tudo indica, um projeto político que deflagra tudo isso como um efeito cascata. Porém o desvelar desse projeto será feito no próximo vídeo dessa série:

As Origens do Nazismo de Esquerda. Iremos demonstrar como essa deturpação, que não tem respaldo em nenhum estudo sério sobre o tema, cumpre a agenda ideológica sob a influência da Escola Austríaca de Economia, e tem feito, ao longo dos anos, a cabeça de libertarianistas e paleo-conservadores por todo o globo terrestre. Tentaremos deslindar a visão de mundo e as estratégias dessa Escola, de forma a identificar suas práticas e revelar as consequências concretas de seu pensamento.

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Referências

Iberê Thenório — Manual do Mundo, Yoube: “Como escrever uma carta secreta” — https://www.youtube.com/watch?v=XaaU70UFcJY

Artigo original de Dunning e Kruger: Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments: https://pdfs.semanticscholar.org/e320/9ca64cbed9a441e55568797cbd3683cf7f8c.pdf

Brasileiros criam debate que não existe na Alemanha: https://www.dw.com/pt-br/brasileiros-criam-debate-que-n%C3%A3o-existe-na-alemanha/a-45531446

“Discussão sobre ‘nazismo de esquerda’ não tem base honesta”, diz embaixador alemão: https://www.dw.com/pt-br/discuss%C3%A3o-sobre-nazismo-de-esquerda-n%C3%A3o-tem-base-honesta-diz-embaixador-alem%C3%A3o/a-45567045

Nazismo é de direita, define Museu do Holocausto visitado por Bolsonaro em Israel: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47784368

As origens ideológicas do nazismo: https://www.dw.com/pt-br/as-origens-ideol%C3%B3gicas-do-nazismo/a-45591317

Yad Vashem — The Children’s Memorial: https://www.youtube.com/watch?v=BsJqKdN9B3A

NAZISTAS BRASILEIROS ODEIAM A ESQUERDA E VENERAM BOLSONARO: https://theintercept.com/2019/04/07/nazistas-bolsonaro-esquerda-israel/

Video do Cadê a Chave — Nilce e Leon destroem Nando Moura: https://www.youtube.com/watch?v=k3VEZfcShv8


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