Conversas Esdrúxulas

Esdrúxula é apenas um nome, um desencaixe. Conversas que jorram palavras, palavras que viram imagens, imagens que capturam sentidos diversos. Talvez, algo se entenda disso tudo… ou não…

…eu poderia cantar todas as músicas que eu já esqueci…
Conversas Esdrúxulas

…eu poderia cantar todas as músicas que eu já esqueci…

Desenho: Peixe - Aline Brasil Acordo cedo e piso o chão. Ali, parece que tudo tem o seu devido lugar. Depois vem o café, o banho, o trabalho e com sorte os amigos. A nossa vida tem um roteiro base que não vivemos sem. Por outro lado, em um exercício de imaginação, eu poderia não sair da cama. Demorar-me indefinidamente. Imaginar, sonhar talvez ou só sentir… Existe apenas esta forma de vida? Por que somos tão apegados a ela? Quais sentidos anestesiamos ao ponto de não sermos felizes dentro disso e isso ser absolutamente normal? Não falo de felicidade como querem os que desejam um Paraíso, falo da força que se move, imprevisível, inconstante, sem hora marcada para chegar e sair. O sendo, o indo… Como se deslizássemos, como se permitíssemos, como se fôssemos mais humanos e menos deu...
Cultura machista e o tal… “Estupro Culposo”
Conversas Esdrúxulas

Cultura machista e o tal… “Estupro Culposo”

Ano de 2020, século XXI. Os homens brancos diriam que… avançaram. Século XXI, novembro de 2020. Juiz libera estuprador. O homem branco sempre dono da palavra… Advogado humilha vítima de estupro. Mulher… Mulher… você não pode nada. Século XXI. O homem sempre dono da palavra inventa o “estupro culposo”. A lei muda, mas… o estupro se mantém indiscriminado. “Estupro culposo”, mais essa pra gente engolir? Estuprador homem branco milionário inocentado. Justiça de homem… Justiça pra homem. Mulher branca humilhada pelo advogado. Mulher negra, nem se fala, nem se abre julgamento. Mulher indígena, nossas avós pegas no laço… sequer existem. Gatilhos… Gatilhos diários pra todas nós… Uma cai, todas sangram… Homem desconstruído? Onde? Dá pra diz...
Aquele chão não se pisa
Conversas Esdrúxulas

Aquele chão não se pisa

Desenho: Pés e Pássaros — Aline Brasil Aquele chão não se pisa. Disseram-me uma vez. Então pisei! Eu nunca soube o que pensar, o que sentir, o que fazer. Era um segredo só meu. Por outro lado, uma liberdade da cor do céu azul de um dia ensolarado. Eu era criança. E pra sempre seria. De lá pra cá eu me detenho diante das denúncias, diante do emaranhado daquilo que sempre fui: um corpo errante. Tão incapaz de ser gente, tão incapaz de manter o sorriso no rosto, incapaz de jogar. Mas eu pisei aquele chão e até hoje sinto o frio duro que marcou os meus pés. Eu sei, embora sobre nada eu possa falar. Aqui estou em minha mesa. Meu gato canta como um mosquito. Ele não sabe o que faço. Nem eu entendo o que lhe passa. De todo modo somos um. E lá fora, o vento me recorda os momentos de outr...
O Corpo
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O Corpo

Desenho: Corpo - Gilberto Miranda Todos os dias acordo o mesmo corpo. E esse mesmo corpo não sou eu. O “eu” é apenas uma ideia vazia e sem corpo. O que é este corpo que teria tudo para nos definir, mas que nos escancara o indecifrável sobre nós? A gente se engana. Pensamos que sabemos tudo sobre o corpo. Dissecamos ele, observamos até o invisível celular. Os ossos, os nervos, a pele, os órgãos, o sangue, desbravamos tudo. Mas o corpo não é nada disso. Ele não é o contorno e nem o preenchimento. Ele todo é impalpável, ele todo escapa. O corpo escapa. E é por escapar que maltratamos tanto ele e que desejamos a sua morte. Nossa briga histórica contra o corpo é porque nunca suportamos o que escapa, o que foge e escorre. Se o corpo não puder ser algo contido e que caiba bem nos contor...
Hoje eu aceito a pausa
Conversas Esdrúxulas

Hoje eu aceito a pausa

Desenho: Pausa — Aline Brasil Hoje eu aceito a pausa… Não brigo mais com ela… De alguma forma a escuto e encontro o que antes não via: um convite para não esquecer. Estou em processo de desintoxicação temporal. Cuspo e vomito ponteiros e números. Hoje eu aceito a pausa e o silêncio, não porque me calei, mas porque agora posso ouvir tudo no mesmo instante e ouvindo posso dizer. O cansaço ainda é grande. Hoje eu não brigo mais com ela. O tempo é só uma invenção e se paramos de inventar o tempo vira máquina e os nossos órgãos nos sabotam. Eu disse que hoje eu aceito a pausa, o silêncio e a invenção. Estou em processo de desintoxicação e o cansaço ainda é grande. A minha invenção atemporal é a queda. Na queda eu desejo um encontro. Os encontros são passagens r...
Rasgar o Vento
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Rasgar o Vento

Desenho: Cansaço — Aline Brasil A sensação é de tontura, de um rodopiar sem pausas, de um andar trôpego por cima de um muro alto e estreito. Eu tento tatear o mundo, mas ele habita meu corpo como fumaça e sempre esqueço do meu nome. Por que estou aqui? Por que vim parar nessa bola redonda tão pequena chamada Terra? Na verdade eu não me importo com o porque, mas com o que posso fazer a partir do momento em que me enxergo pisando esse chão. Do que é feito esse chão que piso? Às vezes sou levada para lugares que desconheço ou para lugares que conheço muito bem e dos quais não consigo sair sem que eu risque algo no papel. Hoje risco o meu próprio risco e assimilo o meu próprio fracasso. Desta vez com olhos abertos, atentos a qualquer dedo apontado pra mim. Sei lá… A gente de...
“Deus” não está morto
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“Deus” não está morto

Desenho: A Morte — Aline Brasil Olhar para a nossa hitória é algo importante por dois motivos básicos: primeiro porque olhando para trás, para o que vivemos, podemos aprender com os nossos erros e não deixá-los se repetir, segundo porque ao revivermos as nossas memórias recriamos o que somos, nos transformamos e temos a possibilidade de fazer isso nos tornando seres melhores do que já fomos. Nós temos feito isso? À luz dos acontecimentos recentes fica claro que não. No século XIX, o pensador Nietzsche disse: “Deus está morto”. Ele falou da morte das velhas ideias platônicas que dividiram o mundo em dois: o inteligível e o sensível. Falou da morte do cristianismo que deu continuidade a essa divisão e fez do ser humano um ser condenado a viver em culpa e em dívida eterna com Deus. ...
Convido palavras a estarem…
Conversas Esdrúxulas

Convido palavras a estarem…

As palavras são difíceis de tocar. São transparentes, turvas, feitas de camadas. Tentamos, mas o corpo é quem realmente sabe de forma mais profunda o que a palavra apenas esbarra. Eu tenho um segredo: o meu nome não fala sobre mim. Mas temos dificuldade em aceitar essa reflexão. Afinal, o que faríamos com a nossa crença histórica e irresistível de que a palavra seja divina ou verdadeira, completa e fechada em si mesma? É desconsiderando o corpo que abandonamos o caminho da escuta, a porta de entrada e saída da incerteza e pisamos um chão cujas pedras cimentadas são feitas de verdades inquestionáveis. As palavras deixam de sentir e passam a engessar, na tentativa de dar conta do que gostaríamos de ouvir. Mas, de novo, o corpo é quem sabe de um mundo sem previsões e a palavra é uma experi...