Crimethinc – Sua Política é Um Puta Tédio

Autor: Crimethinc
Título: Sua Política é Um Puta Tédio
Data: 11/04/1997
Notas: Traduzido por Ian Shmidt 01/01/21
Fonte: https://pt.crimethinc.com/2021/01/12/sua-politica-e-um-puta-tedio, theanarchistlibrary.org/library/nadia-c-from-crimethinc-your-politics-are-boring-as-fuck

Admita, sua política é um puta tédio. Por que você acha que ninguém aguenta quando você começa a falar? Por que o seu grupo de teoria anarco-comunista nunca recebe atenção? Por que os proletários oprimidos não se conscientiza logo e ingressam na sua luta por libertação mundial?

Talvez, depois de anos de esforços para educá-los, você começou a culpá-los por suas condições. Eles devem gostar de estar enterrados nas botas do imperialismo, por isso não mostram interesse em causas políticas. Por que o povo não se junta a nossas assembleias? Por que eles não se unem a nossos protestos orquestrados e cantam nossas canções? Por que eles não frequentam livrarias anarquistas? Por que eles não sentam e estudam sobre os conceitos necessários para entender a complexidade da teoria marxista?

A verdade é: esse sua política é chata pra maioria das pessoas porque ela realmente é inútil. Todo mundo vê que o seu estilo (com marchas, cartazes e comícios) é antiquado e não tem mais nenhum efeito transformador, na verdade ele se tornou uma parte previsível do status quo. O povo acha seus jargões pós-marxistas desanimadores pois eles não passam de uma linguagem de disputa acadêmica, não uma arma capaz de enfraquecer o sistema. Eles sabem das disputas internas, das incontáveis vertentes e rachas, sabem que discussões intermináveis sobre teorias efêmeras são incapazes de causar mudanças reais no mundo que elas experimentam no dia a dia. Eles sabem que não importa quem seja o líder, quais leis estejam na constituição ou qual “ismo” os intelectuais estão seguindo, sabem que a substância de suas vidas vai ser a mesma. Eles (nós também) sabem que o tédio é a prova definitiva de que essas politicagens não são a chave para nenhuma transformação, como se nossas vidas já não fossem tediosas o suficiente.

E você sabe também. Quantos de vocês não encaram a política como responsabilidade? Vejo muitos se engajando como um compromisso, com um sentimento de dever, enquanto na verdade seus corações preferiam fazer milhões de outras coisas. O seu trabalho voluntário é seu passatempo favorito ou você o faz por um mero senso de obrigação? Por que acha que é tão difícil motivar as pessoas a fazer o mesmo trabalho que você faz? Seria por um sentimento de culpa que te leva cumprir o “dever” de ser uma pessoa politicamente ativa? Você pode até temperar seu “trabalho” tentando (conscientemente ou não) arrumar problemas com as autoridades e acabar preso — não que isso vá ajudar em alguma coisa, seria apenas pra deixar as tudo um pouco mais emocionante, talvez pra reviver um pouco do romance dos tempos turbulentos que ficaram no passado. Você já sentiu participar de um ritual, uma antiga tradição de manifestações, há muito tempo estabelecida, que só serviram pra realçar a posição dos que está combatendo? Você já sonhou secretamente em fugir da estagnação e do tédio de suas responsabilidades políticas?

Não é de admirar que ninguém tenha se juntado a você em seus esforços políticos. Talvez você diga a si mesmo que é um trabalho difícil e ingrato, mas alguém tem que fazê-lo. Bom, a resposta é… NÃO.

Na verdade, você nos presta um belo desserviço com sua política cansativa e entediante. De fato, não há nada mais importante que a política. Mas NÃO a política da constituição ou da “democracia”, onde são eleitos legisladores para assinar os mesmos documentos e perpetuar o mesmo sistema. Também não estou falando da política do “eu me envolvi com a esquerda radical porque eu gosto de debater sobre detalhes triviais e escrever retoricamente acerca da inalcançável utopia” anarquista; nem falo da política desses líderes ideológicos que só demandam sacrifícios pela “causa”. Mas falo da política do cotidiano que vivemos todos os dias de nossas vidas. Quando você separa a política do imediato, da experiência particular das pessoas, ela se torna completamente irrelevante e cai no domínio privado de intelectuais bem pagos e confortáveis, que podem se dar o luxo de se debruçar sobre complexidades teóricas tão maçantes. Quando você se envolve em política por senso de obrigação e transforma a ação política em mais uma tarefa cansativa em vez de fazer dela em um jogo empolgante que vale a pena por si só, você afasta as pessoas cujas vidas já são entediantes demais pra aguentar qualquer chatice adicional. Quando você faz da política algo sem vida, sem alegria, uma responsabilidade medonha, ela se transforma em mais um peso sobre as pessoas em vez de aliviá-las. E assim você arruína a ideia de política para quem ela deveria ser mais importante. Pois todos temos interesse em considerar nossas vidas, em nos perguntar o que queremos dela e como podemos conseguir isso. Você faz a política parecer para elas uma brincadeira da classe média boêmia, sem sentido, miserável e auto centrada, uma disputa de egos sem importância nenhuma para vida real.

O que podemos considerar como “política”? Política é a satisfação de conseguir comida e abrigo, é sentir que nossas interações cotidianas com amigas, vizinhos e colegas de ofício trouxeram benefícios e nos levam a cada dia mais perto da vida que desejamos. Política não deveria ser apenas uma mera discussão sobre essas questões, mas sim agir de forma prática e direta para melhorar nossas vidas no presente, agir de uma maneira que por si só é excitante, divertida, alegre, pois uma ação política que é entediante e cansativa, como o trabalho, só vai perpetuar o cansaço e a opressão.

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