…eu poderia cantar todas as músicas que eu já esqueci…

Desenho: Peixe – Aline Brasil

Acordo cedo e piso o chão. Ali, parece que tudo tem o seu devido lugar. Depois vem o café, o banho, o trabalho e com sorte os amigos. A nossa vida tem um roteiro base que não vivemos sem.

Por outro lado, em um exercício de imaginação, eu poderia não sair da cama. Demorar-me indefinidamente. Imaginar, sonhar talvez ou só sentir…

Existe apenas esta forma de vida? Por que somos tão apegados a ela? Quais sentidos anestesiamos ao ponto de não sermos felizes dentro disso e isso ser absolutamente normal? Não falo de felicidade como querem os que desejam um Paraíso, falo da força que se move, imprevisível, inconstante, sem hora marcada para chegar e sair. O sendo, o indo… Como se deslizássemos, como se permitíssemos, como se fôssemos mais humanos e menos deuses.

Mas, enfim, do eu que falo? A mosca pousa na minha testa, e nunca consigo pegá-la. Estamos acostumados demais ao que conhecemos: um mundo desumano, destruidor e cruel. Um sistema falido, uma lógica que consome tudo. Nossas vísceras e ossos. Assim que colocamos os pés no chão começa a engrenagem…

Vamos falar de uma coisa bem… bem banal? O dinheiro! Notou que a gente vive por ele, por causa dele, e atrás dele? E só? É esta a questão que me deixa tão cabisbaixa e quieta. O como lidamos com essa ideia de valor, com esse pedaço de papel. Nosso Rei. Dividimos? Não! Acumulamos! A estrutura do capital nos ensinou a sermos capital desde dentro, e não podemos mais afirmar que somos autônomos, por mais descolados que nos esforcemos em ser. A gente nega o outro e, então, a gente se nega. Todo esforço nessa direção é uma capa fina demais para colar na nossa pele. Os rótulos são vendidos e comprados. Por trás somos cada um por si… Deus? (nem existe!)…

Sabe a nossa máxima? Morrer faz parte, indignar-se não…

Deixa morrer, corra o risco da morte, essa é a normalidade mais cruel que introjetamos. O racismo, o estupro, a saída de casa durante uma pandemia largada à sorte, a gente diz: que pena, faz parte, mas se um negro grita, uma mulher se arma, ou algo nos escancara o ridículo que decidimos ser: isso não, indignação não! Afinal somos frágeis demais para um espelho. Perdemos a capacidade de nos olhar, queremos estampas. A frenética inversão de jogar para o outro o que somos e não queremos ver.

Olhei no espelho e me perguntei: o que fazem neste mundo as pessoas que veem os seus próprios olhos?

Sobreviver ao realismo grotesco do Capitalismo, do Patriarcado, sem um arranhão sequer, é algo apenas para 1% da população mundial. Todo o enorme resto é carcomido com maior violência ou menor, diretamente ou indiretamente, mas ninguém passa imune a essa possibilidade de vida introjetada como a única possível.

Então tenho decidido demorar na cama. Decidido chorar e sentir dor. Decidido me destruir no que não quero. Eu nunca quis um comandante pra mim, muito menos feito de papel.

Estou sozinha nisso?…

Meu estômago ronca, preciso pisar o chão e fazer o café. Abandono meu espaço aberto, o meu reflexo, e parto para a guerra. A vida normatizada e tão doce em seus enganos, tão sutil em seus efeitos que pareço sequer lutar. É como se eu flutuasse no espaço como um astronauta perdido e declarasse guerra às estrelas. Nada acontece… embora dentro da minha roupa, o meu corpo todo estremece.

Tudo bem, eu vou, mas… este café terá que sustentar a minha reclusão sem julgamento algum de ninguém, o meu corpo que diz não. E eu terei que criar formas de atravessar o grosso e duro muro que me cerca. Talvez com bombas, talvez com punhos cerrados, mas… não! Provavelmente eu não faça nada e só me imagine perdendo o contorno, perdendo a cor, virando fantasma e rindo, pois o muro não seria mais obstáculo e eu poderia cantar todas as músicas que eu já me esqueci. Colocaria as minhas peças onde eu quisesse e assinaria o meu nome.

Meu nome? Pouco importa! Eu limpo meu rosto todos os dias…


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