Guerra Civil Espanhola de 1936

A Revolução Anarquista

Cartaz exposto nas ruas de Madri em 1.936, antes da Revolução iniciada no dia 19 de Julho: “No Pasaran!”

A Guerra Civil da Espanha em 1936 e a posse do ditador fascista Franco, que inauguraria a ditadura mais longa da Europa, compõem um evento emblemático, embora acabe sendo pouco mencionado por ter ocorrido entre as duas grandes guerras mundiais. Apesar de totalmente inserida nesse contexto entre guerras, existem especificidades importantes que, por ocasião de seu aniversário agora em 19 de julho, é propício que falemos.
Sem equívocos, podemos localizar a Guerra Civil Espanhola como um prenúncio do nazi-fascismo que iria imperar nos anos seguintes, deflagrando a Segunda Guerra em 39. Além da ajuda financeira de Mussolini e Hitler a Franco e sua Falange anticomunista, Itália e Alemanha iriam testar na Espanha armamentos e estratégias que mais tarde iriam ser empregadas no conflito mundial. Por outro lado, a guerra espanhola também nos mostra a potência da força popular quando unida em um objetivo comum, conquistando sua liberdade e autonomia, mesmo que os próprios aliados, em algum momento, possam sabotar o sonho libertário.

Do Golpe à Revolução

Nostálgica de seu passado imperialista do século XVI, a Espanha tinha recém perdido suas colônias na América Espanhola, como Cuba, Porto Rico e, principalmente, seu posto avançado de comércio com a Ásia: as Filipinas. No início do século XX a Espanha era um país onde 70% da sua população era agrária, mas com as terras concentradas em grandes latifúndios: camponeses passavam fome e metade da população era analfabeta. A industrialização iniciada após a Primeira Grande Guerra se concentrava nas grandes cidades, tendo a região da Catalunha 45% dos operários. Em 1931, a República Espanhola se inicia em meio à decadência e pobreza ocasionada com a crise de 1929, marcada pela ampla derrota dos monarquistas e a renúncia do Rei Afonso XIII.

A queda da monarquia, até então sustentada pelo poder da Igreja Católica e pelo Exército gera uma série de insatisfações na direita. O reinado de Afonso XIII financiava um clero inchado e rico, cujos membros, entre padres e monges ultrapassavam mais de 115 mil batinas, maior que o número de estudantes de ensino médio e o dobro dos estudantes de ensino superior. O Exército espanhol possuía, de cada 6 soldados, um oficial proveniente das classes mais altas: industriais e latifundiários. Eles formavam uma poderosa força reacionária que governava a Espanha desde há muito tempo.

Neste breve período republicano, organizações socialistas ganham relevância na construção da República Espanhola através da Frente Única: uma coalisão com os Republicanos burgueses. Com a aliança é possível discutir certas conquistas que vão desde o reconhecimento de direitos das mulheres à diminuição da influência da Igreja na educação e no Estado, passando pela libertação de Marrocos, a autodeterminação de bascos e catalães e uma profunda reforma agrária que distribuiria terras aos camponeses. Nenhum desses avanços teve um caráter revolucionário, de rompimento com o sistema, mas sua demora começou a gerar insatisfação ao campesinato faminto e desassistido historicamente.

Com um ano de República, já em 1932, setores do Exército tentam a restauração da monarquia, mas falham. No entanto, ganha cada vez mais espaço a retórica do “bem contra o mal”, dos cruzados da cristandade contra os “netos de Caim”: seria preciso acabar com os “comunistas” antes que eles acabassem com a Espanha.

Foto do Comitê Regional da CNT/FAI em Barcelona

Em 1933, camponeses descontentes com 2 anos sem cumprimento das promessas republicanas, tentam estabelecer um governo popular na região de Andaluzia, confiscando as terras e queimando títulos de propriedade com a pretensão de estabelecer um Comunismo Libertário. O Estado, cada vez mais incorporando pessoas da direita reacionária em seus quadros, reprime a rebelião com a ordem expressa de não fazer prisioneiros e promovendo uma chacina.

Ainda em 1933, descontentes e cientes do sangue nas mãos da república, as eleições parlamentares dariam ampla vitória a coalisão da direita reacionária, tornando relevante a CEDA (Confederação Espanhola de Direitas Autônomas), um partido simpático à ideologia e práticas fascistas. Com a entrada de três ministros da CEDA no governo, em 1934, as frentes operárias começam organizar greves gerais em todo país, culminando na revolta dos mineradores nas Astúrias, que desapropriam as fábricas, distribuem terras e constroem comitês operários de autogestão. O levante, batizado de Comuna Operária e Camponesa das Astúrias, aguenta heroicamente cerca de 15 dias em luta contra a Legião Estrangeira e tropas mouras enviadas para destruí-lo.

Seguiu-se então um dos massacres mais sanguinários que se tem notícia, comparável à repressão colonial que os impérios faziam com outros povos, com a diferença de que se tratava do próprio povo espanhol. De imediato 3 mil asturianos são executados sumariamente, muitos depois de terem se rendido, seguido da deportação de mais de 30 mil camponeses e anarquistas para as colônias espanholas no mundo. Quem comandava esses ataques de Madri, era já o futuro ditador fascista Francisco Franco.

Concomitante à ascensão da Falange, movimento fascista espanhol fundado por Primo Rivera, Hitler ganha as eleições na Alemanha e acena para Mussolini e a todo movimento fascista na Europa. Por outro lado Stalin na União Soviética ordena alianças com a burguesia por parte das organizações comunistas estabelecidas nos países ocidentais. Inicia-se o chamado “Biênio Negro”, onde prisões, fechamento de sindicatos e repressão generalizada ao movimento operário se tornam práticas políticas correntes, ao mesmo tempo em que greves e paralisações populares tomam conta das ruas da Espanha.

Partido ligado a URSS: Partido Operário de Unificação Marxista

Em Janeiro de 1936 se forma a Frente Popular entre Republicanos e o POUM (Partido Operário de Unificação Marxista), fundado em 1935, ligado à União Soviética e seguindo as orientações de Stalin. Leon Trotsky iria classificar esse apoio como uma “traição à revolução”, no entanto, a Frente Popular recebe voto massivo dos trabalhadores, embora no cômputo geral a vitória tenha sido apertada, aumentando a polarização ideológica. Com a vitória, a ala ligada à direita reacionária é afastada e os militares com tendências conspiracionistas são enviados para prestar serviços nas colônias espanholas. Entre eles, Franco.

A vitória serve de incentivo para que a FAI (Frente Anarquista Ibérica) que controlava a CNT (Confederação Nacional do Trabalho) inicie vários movimentos de tomadas de terras e soltura de presos políticos do período repressivo anterior. O presidente Azaña, apoiado pelos latifundiários, inicia nova repressão, ao que é respondido pela CNT com uma greve geral. Seja em Madri ou Catalunha, anarquistas são presos e torturados, sendo logo em seguida declarado como ilegal todo sindicalismo. Nos primeiros dias de julho de 1.936, eram mais de 1 milhão de trabalhadores em greve e o governo da Frente Popular estava inoperante, enquanto a Igreja e o Exército conspiravam um golpe aliados aos monarquistas e membros da Falange. Das Canárias, Franco expressa sua insatisfação e apoia o golpe sob o slogan “Arriba España”.

Calvo Sotelo, lider da conspiração fascista, cujo assassinato serviu de estopim para a tentativa de golpe.

A tentativa de golpe é antecedida de atentados da direita fascista contra parlamentares e ativistas de esquerda, mas também com respostas violentas da classe operária, culminando na morte do líder da direita, Calvo Sotelo, que alguns dias antes ameaçara o governo com as seguintes palavras:

“Vocês estão exasperados porque eu proponho o Estado Integral, que vocês insistem em chamar de ‘Fascista’. Mas se o Estado Fascista é o fim das greves, o fim da desordem, o fim dos abusos contra a propriedade, então eu declaro a vocês com orgulho que sou fascista. Eu declaro tolo todo soldado que diante da Eternidade não esteja pronto a erguer-se contra a Anarquia se isso for necessário.” (José Calvo Sotelo, em 16 de Junho de 1.936)

Três semanas após essa declaração, Sotelo é assassinado e o fato serve como estopim para a revolta reacionária. Enquanto todo o gabinete de Azaña, em Madri, passa a noite preparando uma negociação com Franco que já se organizava em Marrocos para voltar à Espanha, os proletários de Barcelona se reuniam para impedir que a República se rendesse aos fascistas.

Barricadas formadas nas ruas de Barcelona contra o Golpe: inicia-se a Revolução Anarquista

Às 5 da manhã do dia 19 de Julho, Barcelona acorda repleta de barricadas depois dos trabalhadores passarem a noite invadindo arsenais, depósitos de armas e confiscando automóveis dos fascistas para organizar a resistência. Inicia-se a Revolução Espanhola. O General Gonzalo Queipo de Llano declara: “Viva a Morte. Preparai as sepulturas…”, seguido das palavras de Franco: “Salvarei a Espanha do marxismo ao preço que for, mesmo que isso signifique fuzilar meia Espanha”. Com ajuda tanto de Mussolini quanto de Hitler, Franco consegue levar seus soldados de Marrocos para a Espanha e inicia um massacre impiedoso da população.

De início o golpe obtém sucesso nas cidades mais pobres da Espanha, onde há pouca organização sindical. De Marrocos a todo sul da Espanha, avançando pela fronteira de Portugal, onde os golpistas têm apoio da ditadura portuguesa de Salazar, Franco avança e promove genocídio em cada cidade que adentra. No entanto, a insurgência da população, unida e organizada pelas frentes anarquistas e de esquerda oferece uma dura resistência contra as forças golpistas. Retomam várias cidades e confiscam as armas golpistas para se fortalecerem. As colunas formadas pelos trabalhadores começam a retomar as grandes cidades e fazer o exército recuar formando barricadas com mulheres, crianças e velhos, enquanto as colunas avançam.

As fábricas, abandonadas pelos gerentes e proprietários são tomadas pelos trabalhadores que implantam desde cedo uma autogestão horizontal e democrática. Quando os operários mineiros remanescentes da comuna de Astúrias mandam mais de 5 mil homens com dinamites e armamentos, as forças operárias retomam Madri e avançam cada vez mais.

Na zona republicana convivem dois poderes distintos: o novo poder operário anarquista e socialista e o poder burguês republicano, que, ao menos na Catalunha, apoiara os trabalhadores contra os fascistas. As potências democráticas da Europa, Inglaterra e França se recusaram a interferir ou ajudar, ao passo que o eixo fascista formado por Itália e Alemanha continua enviando recursos e armamentos para os reacionários da Espanha. Stalin atrasa a ajuda e não quer se indispor com as determinações da Inglaterra e França, enquanto o próprio Partido Comunista declara que seu único interesse era restaurar a democracia na Espanha sem pretensões revolucionárias.

Famosos internacionais que fizeram parte da Brigada Internacional da Revolução

A Revolução Espanhola ganhou grande admiração de boa parte do mundo, e muitos trabalhadores e simpatizantes internacionais engrossaram as fileiras das milícias revolucionárias para consolidar a revolução contra o fascismo com as famosas Brigadas Internacionais.

Enquanto isso, Franco se autodeclara Generalíssimo da Espanha Nacionalista, resgata o espírito cruzado (como católico fanático) e declara a Espanha como orientadora espiritual do mundo através de seu futuro Estado Totalitário. Envia quatro colunas para cercarem Madri, tendo que enfrentar todo o povo madrileno que já havia se preparado para a resistência junto com as milícias revolucionárias e a Brigada Internacional. Na sangrenta batalha, cairia um dirigente anarquista que entraria para a História: Buenaventura Durruti. A Coluna Durruti tinha sido responsável por muitas vitórias revolucionárias e sua morte foi uma comoção das massas populares.

Durruti — Revolucionário Anarquista morto em Madri em 1937

Pela primeira vez na história bombardeios de avião acontecem contra uma população civil, mas Madri não se rende, confinando o exército de Franco nos arredores distantes da capital. Em seguida é instituído o Governo Central, formando um exército regular e restaurando a polícia, enfraquecendo assim as brigadas e as milícias do povo. Uma ampla aliança é formada com os partidos de esquerda, republicanos e a FAI/CNT que, mesmo anarquistas, aceitam participar do novo governo. Mulheres anarquistas protestam contra a decisão do novo estado de confina-las a trabalhos fora do front de batalha e discordam do estilo burguês de organização que estava sendo implantado.

Mulheres Anarquistas da Revolução Espanhola

A Traição Comunista

Quanto mais ficava “aburguesado”, mais o governo central se tornava controlador e burocrático, com total anuência de Stalin que incentivava, inclusive, a saída de anarquistas e trotskistas do governo. Stalin chegou a declarar que ambos deveriam ter o mesmo destino que tiveram na própria União Soviética. O ano de 1937 irrompe sob a crescente insatisfação das forças populares revolucionárias com os rumos que a revolução estava tomando.

O novo governo central passou a negar crédito e até saques oriundos das fábricas assumidas pelos trabalhadores que não tinham se submetido ao controle estatal e também dissolve os comitês autônomos de abastecimento que geriam a alimentação dos camponeses durante a guerra. Cada vez mais a aliança espontânea entre operários, camponeses e populares se enfraquece com a burocratização forçada do Governo Central e dos comunistas no poder, que chegaram a reverter a socialização das indústrias de leite, retirar o controle operário das alfândegas, desarmar a população e proibir a existência das patrulhas operárias com o intuito de reconstruir a polícia estatal.

Com essas medidas, os anarquistas renunciam a seus postos no governo catalão, embora continuem apoiando o Governo Central. A base jovem e revolucionária da FAI/CNT não aceita mais apoiar um governo que não os representa e lhes tira a liberdade duramente conquistada. Surge a organização anarquista “Amigos de Durruti” cujo objetivo é destituir os dirigentes da CNT e rechaçar toda a colaboração com a burguesia e os reformistas comunistas.

Panfleto distribuído pela Juventude Libertária contra as ações do Governo Republicano

Com a palavra de ordem “Não mais governos”, os jovens anarquistas cobrem Barcelona com panfletos contendo seu programa revolucionário com as seguintes palavras: “Todo o poder para a classe operária, organismos democráticos de operários, camponeses e combatentes”. Em abril, a Juventude Libertária de Catalunha publica um manifesto contra a juventude stalinista contrarrevolucionária, dizendo:

Ao front de Aragão se negam armas porque é decididamente revolucionário. O Governo Central boicota a economia catalã para obrigar-nos a renunciar às nossas conquistas revolucionárias. Enviam ao front os filhos do povo, mas mantém na retaguarda forças uniformizadas com propósitos contrarrevolucionários. Tem ganhado terreno para uma ditadura, mas não proletária, e sim burguesa. Estamos firmemente dispostos a não nos responsabilizarmos pelos crimes e traições de que é objeto a classe operária. Estamos dispostas a voltar, se for necessário, à luta clandestina contra os mentirosos, contra os tiranos do povo e contra os miseráveis mercadores da política. Que não venham certos camaradas apaziguar-nos com palavras. Não renunciaremos à nossa luta. Os automóveis oficiais e a vida sedentária da burocracia não nos deslumbram. (Juventude Libertária da Catalunha, Abril de 1937)

Stalin envia fuzis, metralhadoras e carros blindados para o governo de Barcelona a fim de conter a agitação anarquista e proteger o governo burguês. Inicia-se a repressão do próprio governo fruto da revolução e são proibidas as manifestações e protestos, inclusive no 1º de Maio. Com a tentativa de retomar a Telefônica de assalto por ordem do Comissário de Ordem Pública do Partido Comunista, a CNT resiste ao ataque e os ânimos se acirram, levando a Juventude Libertária e os operários anarquistas a ocuparem as ruas.

O grupo Amigos de Durruti exige a formação de uma Junta Revolucionária para a socialização definitiva da economia, o desarmamento da Guarda Nacional Republicana e a dissolução dos partidos contrários à insurreição. O novo Governo responde enviando suas tropas para o embate, enquanto os dirigentes da CNT, UGT e POUM pedem para que as barricadas sejam desfeitas, sem obter, contudo, apoio dos insurgentes. Com a tomada da Telefônica e a ocupação dos técnicos dos partidos no controle, toda a comunicação é cortada. Ainda assim as barricadas continuaram nas ruas e mais revoltadas ainda com a traição de seus próprios dirigentes.

A insurreição foi esmagada com mais de 500 mortos com a declaração do presidente que havia necessidade de se eliminar os incontroláveis. A repressão estava aberta pelo governo central e o Partido Comunista começa a acusar os dissidentes de fascistas, declarando ilegais os Amigos de Durruti e o POUM, e implantando uma feroz censura à imprensa da CNT. Todos que defendiam a independência do proletariado espanhol contra Moscou foram perseguidos e mortos. Toda marcha foi proibida e reuniões sindicais só poderiam acontecer com a autorização do Comitê da Ordem Pública, desde que solicitada com três dias de antecedência, como era na monarquia espanhola.

Definitivamente nas mãos dos stalinistas e burgueses, o governo invadiu Aragão e dissolveu os conselhos municipais eleitos pela população, prendeu e assassinou seus dirigentes e desmontou todo estabelecimento coletivo. Um ato vil, comparável com a tomada das Astúrias em 1934 pelo governo fascista. A revolução, por fim, havia sido derrotada por seus próprios aliados.

Base jovem e revolucionária da CNT/FAI nas ruas de Madri

A Chegada de Franco

Após o fracasso na tomada de Madri, os fascistas avançam com selvageria nas cidades vizinhas. Em Abril de 1937, auxiliados pela aviação alemã, a cidade de Guernica é bombardeada por três horas matando mais de 1.600 pessoas. Para Göring, apenas um treinamento para seus pilotos e suas máquinas de guerra de sua Luftwaffe. Para a população, o horror genocida fascista mostrando sua verdadeira face, imortalizado por Pablo Picasso em uma pintura icônica. Guernica viraria um símbolo, embora negativo, da inauguração do terror contra civis, como um novo princípio que integraria a moderna maquinaria de guerra.

Guernica: Pablo Picasso

No início de 1938, os fascistas avançam sobre Terual e Aragão, chegando às portas de Barcelona com bombardeios incessantes. Com moral em baixa, a população reage com a ajuda das Brigadas Internacionais, mas são rapidamente derrotadas pelos franquistas. Em 1939 caem Barcelona e toda a Catalunha, e em abril o Exército Nacional entra em Madri e dá fim a guerra civil sob o sangue de sua própria população. Na consolidação de sua vitória golpista, Franco assume o tão almejado poder totalitário e inaugura a mais longa ditadura da Europa por 40 anos, perseguindo implacavelmente seu povo, matando indiscriminadamente e pondo fim ao sonho libertário mundial.

Francisco Franco toma Madri e impõe uma ditadura genocida de cerca de 40 anos

O sonho não acabou…

O Anarquismo não é uma teoria do passado, ou mesmo um amontoado de práticas sem propósitos que traduzem um voluntarismo inconsequente e agressivo. Vivemos, hoje, um não-lugar (u-topos), que nada tem de irreal ou impossível. Toda impossibilidade de se construir uma sociedade horizontalizada, baseada na solidariedade e na cooperação, só existe diante daqueles que não conseguem desfazer a ideia fixa de organizações verticalizadas e de uma natureza humana específica. Isso não significa que pensamos que basta acreditar que as coisas surgem. A Utopia só será um lugar concreto (topos) na construção diária dele, começando por nós mesmos e na prática diária pedagógica e generosa do exemplo.

Se nesse caminho, a insistência na indignidade prevalece imposta por aqueles que se fixaram em modelos prontos, a agressividade pode fazer parte de nosso repertório, mas nunca de forma unilateral e nunca impondo a ninguém que nos siga. A imposição de qualquer ordem que submeta alguém a outrem sob ameaça ou chantagem, é violenta por si só. A liberdade que almejamos jamais foi isenta da responsabilidade de preservar a liberdade de todos e não apenas de alguns sobre outrem.

A ordem capitalista, em um sistema totalitário de organização social, impõe a submissão de pessoas que são obrigadas a vender tempo de vida e esforço em um valor muito inferior ao valor do que é produzido pelo trabalho que realizam. Isso porque nessa ordem verticalizada e hierarquizada, as coisas valem mais que pessoas. E quem é dono das coisas, vale infinitamente mais do que todos os despossuídos. Não podemos ser medidos pela propriedade das coisas e nem as valorizarmos mais que as próprias pessoas.

A luta anarquista, primordialmente, é mostrar ao mundo que estamos todos errados. Não tomamos nada, pois tudo é de quem produz e vive no mundo. No momento em que as pessoas perceberem isso, tomarem consciência da possibilidade de construção na história de sua própria natureza, e abandonar a ideia de uma natureza má e egoísta que os modelos antropológicos burgueses as impõem, a revolução será um fato natural e espontâneo, sem a necessidade de tutela ou imposições de nenhuma ordem. A convivência fará o resto na construção de princípios para o bem comum e não para a vantagem pessoal de alguém.

A Guerra Civil Espanhola nos mostrou isso na medida em que todas as tentativas institucionais de solução se mostraram contra o povo no fim. Continuemos a luta. Não importa. Viva Durruti!


Referências

COUTINHO, E.; SALA, J. B. O ANARQUISMO CATALÃO NO CONTEXTO INDEPENDENTISTA ONTEM E HOJE: RUPTURAS, CONTINUIDADES E NOVAS PERSPECTIVAS. Revista de História Comparada, Rio de Janeiro, v. 12, n. 1, p. 268–298, 2018.

PAXTON, R. A Anatomia do Fascismo. Tradução de Patrícia Zimbers e Paula Zimbers. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

POMINI, I. P. OS AMIGOS DE DURRUTI E A CRÍTICA REVOLUCIONÁRIA DA GUERRA CIVIL ESPANHOLA. ANPUH — Brasil — 30º Simpósio Nacional de História, Recife, 2019.

RIBEIRO, M. T. TIERRA Y LIBERTAD — PORTA-VOZ DOS GRUPOS DE AFINIDADE E DO ANARQUISMO INSURRECIONAL DURANTE A SEGUNDA REPÚBLICA ESPANHOLA. Campinas: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS — UNICAMP, 2018. Tese Doutorado em História.

SOUKI, L. G. Movimento libertário em Barcelona, o lado invisivel. XVII Enanpur, São Paulo, 2017.

TALBOT, A. A Guerra Civil Espanhola e a Frente Popular (parte 2). World Socialist Web Site www.wsws.org, 20 Fev 2009. https://www.wsws.org/pt/2009/feb2009/ptsp-f23.shtml — Acesso em 10/07/2020.


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