Luigi Fabbri, Nikolai Bukharin – Anarquismo e Comunismo “Científico”

Autor: Luigi Fabbri, Nikolai Bukharin
Título: Anarquismo e Comunismo “Científico”
Subtítulo: Confrontação ideológica entre um Marxista e um Anarquista
Data: 1922
Notas: Titulo Original: Anarquismo y Comunismo “Científico”. Tradução e Revisão por André Tunes @Nucleo de Estudos Autonomo Anarco Comunista.
Ela não possui direitos autorais pode e deve ser reproduzida no todo ou em parte, além de ser liberada a sua distribuição, preservando seu conteúdo e o nome do autor.
Fonte: @PDF

Introdução

Qual era o propósito de que Nicolai Bukharin – “o mais forte teórico do partido”, como definido por Lênin – propusesse escrever o breve mas denso texto sobre “anarquia e comunismo científico”?
Na Rússia dos anos 1920, a situação social era como Bukharin escreveu: ruína econômica e decadência da produção e psicologia proletária saudável; tudo isso “tende a degradar o proletariado às condições de plebes irregulares e cria um terreno mais ou menos favorável a tendência anarquista”.
Bukharin, ao dizer isso, quer colocar um limite ideológico a essas “tendências” e faz isso traçando “a linha que separa o comunismo científico marxista das doutrinas anarquistas”. Portanto, este foi um trabalho de divulgação e propaganda dirigido às massas (o panfleto de Bukharin teve uma enorme difusão não apenas na Rússia, mas também em vários países europeus). É isso que caracteriza essas páginas e as torna particularmente interessantes. Além disso, são uma síntese pequena, mas eficaz, do pensamento marxista sobre as questões fundamentais do papel do Estado proletário, a “ditadura do proletariado” e a organização da produção. A interpretação, e não a “representação” que Bukharin oferece das “doutrinas anarquistas”, responde aos propósitos que o teórico marxista propõe: a anarquia não é apenas delineada, mas também explicitamente definida como “o produto da dissolução da sociedade capitalista”, antes, os resíduos produzidos pelo regime bárbaro do capital.
Daí a resposta de Luigi Fabbri. Sua escrita é firme e clara, baseada na realidade e não admite, no mínimo, propaganda retórica e política. Mostra um perfil das “doutrinas anarquistas” completamente diferentes daquele delineado pelo marxista russo.
Os dois textos, aqui publicados em conjunto e pela primeira vez em espanhol, mais de meio século depois da sua primeira edição, constituem um animado debate ideológico, um estimulante “discurso a duas vozes”, cuja utilidade é inegável para compreender as divergências básicas, ainda insuperáveis, entre os socialistas autoritários e os comunistas libertários.
Os textos que fecham o livro pertencem a Rudolf RockerI, conhecido em todo o mundo como um dos estudiosos mais profundos e expositivo fecundo e inigualável do ideário anarquista, que em uma breve jornada histórica nos define com mão de mestre as ideias libertárias, o que e o porquê de suas profundas discrepâncias com o comunismo autoritário. As ideias expressas nestas poucas páginas nos dizem claramente sobre esses problemas, tornando-se assim um complemento ideal para as ideias de Luigi Fabbri, e uma obrigação para aqueles que gostam de aprofundar a busca da verdade e da mudança social.
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ANARQUIA E COMUNISMO CIENTIFICO – Nikolai Bukharin

A decadência econômica, o declínio da produção, inegavelmente acompanha o declínio da boa psicologia proletária; e tudo isso – tendendo a degradar o proletário às condições de plebeus irregulares e transformando elementos de trabalho ativos singulares já em indivíduos desclassificados – cria um terreno mais ou menos favorável às tendências anarquistas. A tudo isto, devemos acrescentar que os sociais-democratas nublou e confundiu o problema da anarquia, adulterando Marx. Consequentemente, acreditamos que é necessário traçar a linha que separa o comunismo científico marxista das doutrinas anarquistas.

CAPÍTULO I

Vamos começar com o “objetivo final” nosso e dos anarquistas. De acordo com a maneira atual de expor esse problema, o comunismo e o socialismo pressupõem a conservação do Estado, enquanto a “anarquia” elimina o Estado. “Defensores” do Estado e “adversários” do Estado: geralmente é o “contraste” entre marxistas e anarquistas.
É necessário reconhecer que não apenas os anarquistas, mas também os socialdemocratas são em grande parte responsáveis por uma definição similar de “contraste”. As conversações sobre o “Estado do futuro” e o “Estado do povo” têm sido muito populares no mundo das ideias e na fraseologia da democracia. Alguns partidos socialdemocratas trabalham, em vez disso, sempre enfatizando de maneira especial o seu caráter de “estatal”. “Somos os verdadeiros representantes da ideia do Estado”, dizia a frase da social-democracia austríaca. Tais concepções não foram apenas divulgadas pelo Partido Austríaco: elas tiveram um certo curso internacional e ainda o têm hoje, na medida em que os antigos partidos ainda não foram definitivamente liquidados. E, no entanto, essa “sabedoria do Estado” nada tem em comum com a doutrina comunista revolucionária de Marx.
O comunismo científico vê no Estado a organização da classe dominante, um instrumento de opressão e violência, e é por este critério que não reconhece um “Estado do futuro”. No futuro, não haverá classes, não haverá opressão de classe e, portanto, nenhum instrumento dessa opressão, nenhuma violência do Estado. O “Estado sem classes” – um conceito em torno do qual os sociais-democratas perdem a cabeça – é uma contradição em termos, sem sentido, um termo abusivamente usado, e se essa concepção forma o alimento espiritual da democracia social, os grandes revolucionários Marx e Engels não tem culpa real.

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