O Corpo

Desenho: Corpo – Gilberto Miranda

Todos os dias acordo o mesmo corpo. E esse mesmo corpo não sou eu. O “eu” é apenas uma ideia vazia e sem corpo.

O que é este corpo que teria tudo para nos definir, mas que nos escancara o indecifrável sobre nós? A gente se engana. Pensamos que sabemos tudo sobre o corpo. Dissecamos ele, observamos até o invisível celular. Os ossos, os nervos, a pele, os órgãos, o sangue, desbravamos tudo. Mas o corpo não é nada disso. Ele não é o contorno e nem o preenchimento. Ele todo é impalpável, ele todo escapa. O corpo escapa. E é por escapar que maltratamos tanto ele e que desejamos a sua morte.

Nossa briga histórica contra o corpo é porque nunca suportamos o que escapa, o que foge e escorre. Se o corpo não puder ser algo contido e que caiba bem nos contornos mesquinhos de nossas ideias, então, o amaldiçoamos ou decretamos a sua morte.

Mas que absurdo! Afinal, tudo isso que decidimos fazer sobre o corpo não recai sobre nós? Do corpo ninguém se livra. Não se aniquila o corpo. Ele é a única coisa eterna enquanto a vida dura. Como sustentamos essa contradição autoimposta? A gente finge muito bem. Somos bons em fazer um teatro de mau gosto. A gente não comunica. Temos fumaça na boca. Escondemos bem cada poro de nossa pele. Organizamos tudo até a nós mesmos. Somos tão organizados que normalizamos até a falta de tempo. Afinal, se tivermos tempo para sentir, o corpo ressurge e o que faríamos com ele?

O corpo nos prega peça, brinca com as nossas verdades, desmorona o nosso vazio e o preenchimento interno de tudo o que nos ocupamos em possuir. O corpo dança mesmo sem música. Ele grita mesmo sem voz. Ele salta mesmo sem pernas. É uma gama de coisas diante das quais as palavras simplesmente se calam. Corpo é silêncio e é um tiro no escuro, é um copo estourando, um líquido que não se contém. Nada o contém.

Então… o que fazer? Resta-nos o abandono desta guerra que nunca fez sentido algum e isso pressupõe o abandono de tudo o que achamos que sabemos sobre nós, de tudo o que tentamos vestir e transparecer, de tudo o que projetamos quando nos definimos. Mas não é um abandono pelo simples abandonar, é um abandono pra de fato podermos milagrosamente nos apalpar, nos sentir e nos contornar. O nosso contorno pressupõe uma dinâmica que não para, pressupõe um movimento que não cessa, e por isso precisamos do abandono de coisas fixas e prontas. O abandono do apego, das mãos fechadas que tentam segurar.

Isso dói! A dor é pressuposto do corpo. Sem dor o corpo vira o anestesiado, o pronto, o acabado, o identificado, quase um ser de luz. Corpo não é luz. Talvez seja um emaranhado de forças, em termos spinosianos: o que afeta e é afetado. Artaud nos diria sobre um Corpo-sem-órgãos. O encarnado. Apenas isso. O corpo oscila, por um lado osso e por outro o fora da pele. Por um lado o impenetrável e por outro o permeável. Nada e tudo. É um balanço. E isso significa limite. A corda bamba e o precipício. O rio e as suas margens. E por isso o corpo subverte e coloca em cheque a tudo, ele é o impreciso limite, aquele ponto exato que nunca podemos tocar sem correr o risco de cair. O corpo é o aceite de um perder-se e um desmoronar-se.

Tudo isso em síntese para dizer que o corpo se movimenta e produz diferença. Inquieto, dilacerado, plural. Processo tolo ou inapropriado, fácil de ser julgado.

– Aposte! — Diz o corpo.

O corpo é este paradoxo. É uma simulação. Um “como se” e uma aposta. É como estar em um líquido, movendo, imerso, e na medida em que vomitamos não tocamos o que sai de nossas bocas. É a simulação de não nos tocarmos. É não parar de se mover. É o estado da loucura permanente, quero dizer, da sanidade.

O corpo é são.

Se historicamente sempre tivemos problemas com o corpo, e sempre quisemos encaixotá-lo e limitá-lo a partir de modelos e padrões ideais, se o patriarcado que dita por séculos o modelo de homem a ser seguido tem, historicamente, eliminado a mulher e maltratado todo o corpo que não se enquadra neste modelo, na nossa sociedade não podemos deixar de considerar o corpo branco que tem se colocado como um modelo a partir de um delírio somente seu, em torno da ideia absurda de raça, subjugando o corpo negro e indígena aos piores lugares possíveis de se construir, subjugando, portanto, o seu lugar no mundo e o seu acontecimento.

E se fizermos as pazes com o corpo? E se nós corpos brancos não subjugássemos outros corpos, mas destruíssemos as idealizações que criamos sobre o nosso corpo, sobre outros corpos, sobre o mundo?

Talvez assim pisemos o chão de verdade e respiraremos sem sufocar ninguém. Nossas estruturas precisam ruir, para que o corpo se movimente como o fluxo que é, para que encontros alegres possam acontecer a partir de nossas escolhas não mais subjugadas, mas livres, livres de toda fantasia que criamos, de toda verdade ilusória a que apegamos. Livres de nosso “eu” para, quem sabe, ressurgirmos como um “nós”. Multiplicidade sem aniquilamento.

Talvez o corpo seja isso, uma viagem sem destino, um flagrante, um passeio, o que antecipa a morte, o infinito findável…

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