O desafio do leite, Janela de Overton e extremismo

Como o extremismo se comunica para tornar o fascismo normal…

Se o chamado “Desafio do leite” proposto pelos produtores de laticínios aqui no Brasil não tiver ligação com o que exporemos nesse vídeo, não podemos afirmar com toda certeza que o gesto de Allan dos Santos, blogueiro bolsonarista e investigado na CPI das FakeNews, seja algo inocente, pois brinca com uma ambiguidade perigosa fazendo exatamente como os trolls da extrema-direita mundial fazem. O fato é que desde, pelo menos 2017, há uma apropriação pela extrema-direita (ou direita alternativa, a alt-right americana) composta por supremacistas brancos, neonazistas, fascistas e fundamentalistas cristãos, ao ato de beber leite como símbolo de uma suposta superioridade racial.

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Tudo isso se tornou visível e risível em 10 de Fevereiro de 2017, quando uma exposição permanente Anti-Trump, montada no lado de fora do Museu da Imagem em Movimento de Nova York chamada He Will Not Divid Us (“Ele não nos dividirá”) organizada pelo ator Shia LaBeouf, foi invadida por um grupo neonazista ostentando tatuagens e iconografia do Terceiro Reich. O grupo dançava com os dorsos nus, bebendo leite e o deixando escorrer por seus pescoços e peitos. Antes dessa visibilidade, porém, meses atrás, o 4chan (um fórum conhecido pelo anonimato que confere a seus usuários e por ser um reduto do extremismo e de fakenews na internet) exibia desde julho deste ano diversos posts anônimos relacionando supremacia branca ao consumo de leite. Os posts tinham por base uma distorção de um estudo publicado na Nature que mapeava as regiões do mundo em que ocorrera a mutação que permitiu que parte da espécie humana continuasse a produzir a enzima da lactase depois do desmame.

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Como parece ser recorrente na ideologia de extrema-direita, para que algo a favoreça sempre se recorre a mentiras, distorções ou falcatruas: convenientemente não é mencionado no post do 4chan que existem outros bolsões de persistência de lactase, como na África Ocidental, na África Subsaariana, na África do Sul, no Oriente Médio e no Sul da Ásia, inclusive mais antigos do que o ocorrido na Europa. Pastores de gado da África subsaariana e do Sul possuem essa mesma enzima em seus DNAs, possuindo toda uma cultura voltada à criação de gado leiteiro, inclusive possuindo 400 palavras diferentes para se referir ao gado.

Assim como acontece no Brasil, que depois de uma frase dita logo se diz tratar-se de exagero ou brincadeira, logo tentaram justificar o ato como trollagem a um liberal branco tentando ser politicamente correto: Shia LaBeouf. No entanto, o post racista teve alta repercussão e supremacistas famosos como o líder da Alt-Right Richard Spencer e o ativista Baked Alaska adicionaram emojis de copos de leite em seus perfis no Twitter, orgulhosos de conterem essa enzima, mesmo que tenha sido causada aleatoriamente por uma mutação, mas que, para eles, passou a ser um símbolo da supremacia e orgulho branco, chegando a originar frases xenófobas do tipo: “você não pode beber leite, então volte”. As Hashtags #MilkTwitter e #Soyboy subiram e viralizaram rapidamente para comemorar as normas tradicionais de gênero dominadas pelo patriarcado branco, ridicularizando a “agenda vegana” (atribuída a uma conspiração judaica comunista), a diversidade e o feminismo. Em 2018, o Animal Studies Journal publicou artigo da pesquisadora Vasile Stanescu intitulado O Poder Branco do Leite: Leite, Direita Racista e a Alt-Right. Nele a autora explica porque o leite foi escolhido como um símbolo de pureza racial pela Direita Alternativa:

“(…) este artigo argumenta que o uso atual da alt-right sobre o leite, tolerância à lactose, raça e masculinidade pode ser conectado a argumentos semelhantes originalmente feitos durante o século XIX contra populações colonizadas e grupos de imigração. No século 19, as populações colonizadoras classificaram as populações colonizadas como “Comedores efeminados de milho e arroz” devido à suposta falta de consumo de carne e laticínios.”

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É importante conhecermos a alt-right de Spancer e entender sua ligação com a extrema-direita que assola o Brasil a partir do entorno e do próprio Jair Bolsonaro e seus filhos. A ligação entre os bolsonaros e Steve Bannon, ex-coordenador de campanha de Trump é conhecida, mas mais do que isso, há uma agenda comum entre a colcha de retalhos ideológica da direita alternativa e os bolsonaros que vai desde a escolha de bodes expiatórios para uma conspiração globalista comunista contra a civilização cristã ocidental, passa pelo negacionismo científico anti-vacina, pelo anti-multiculturalismo, pela xenofobia ou racismo explícito e vai até a própria pandemia do novo corona vírus como farsa e parte dessa conspiração.

A criação dessa direita alternativa foi uma reação ao partido Republicano dos EUA, acusado por eles de, embora conservadores, serem perigosamente tolerantes com agendas afirmativas e progressistas, envolvendo cotas e direitos civis. Viram-se representados, porém, em Donald Trump contra esse “conservadorismo tradicional” que teria se rendido ao establishment. Com isso a direita alternativa também abriu espaço para experimentações de novas ideias da direita, abraçando tanto o pensamento libertarianista, anarcocapitalista, quanto um retorno ao catolicismo romano antes do Concílio Vaticano II, sem esquecer os grupos extremistas e supremacistas como a Ku Klux Klan, neonazistas e fascistas em geral, que tradicionalmente não participavam da política institucional. Ou seja, ideias que podem ser consideradas opostas dentro de um mesmo guarda-chuva prático de virulento ativismo.

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Aqui no Brasil, seja sob influência direta ou por identificação, sob a batuta de Olavo de Carvalho, não foi à toa que grupos fascistas e neonazistas apoiaram a eleição de Bolsonaro à presidência. Não à toa vemos em Brasilia a formação de uma milícia de características inequivocamente fascista encabeçada por Sara Winter chamada 300. Faz parte da história política e pessoal de Jair declarações de cunho racista, homofóbico e preconceituoso, como podemos ver em toda a internet.

De uma coisa não podemos nos enganar, como nos diz Rodrigo Nunes, professor de Filosofia Contemporânea da PUC-RJ; Bolsonaro se utiliza da tática dos trollls para se comunicar. Em uma entrevista à BBC News Brasil ele afirma:

“Você tem um grupo de pessoas que a gente poderia descrever como sendo o núcleo ideológico do bolsonarismo, os formuladores da tentativa de dar uma identidade própria ao que seria o bolsonarismo, que a partir de um determinado momento começam a adotar um linguajar, uma série de pontos discursivos e de traços que são claramente tomados da alt-right americana.”

Nunes é contrário à ideia de “Cortina de Fumaça” defendida por alguns. Para ele é nessas declarações, mesmo ambíguas, que se mantém coeso o núcleo duro do bolsonarismo. Ao se eleger o bode expiatório culpado de todos os males, se institui um jogo que inclui falas que escandaliza a oposição, dando a entender que seja para isso, mera trollagem, mas no fundo representa exatamente o que ele pensa acerca de temas que não pegaria bem dizer com todas as letras. É possível que a cortina de fumaça seja invertida, ou seja, em momentos em que se discute algo importante, lança-se mão de alguma polêmica onde se pode relativizar ou voltar atrás criando as famosas Janelas de Overton para se naturalizar questões ideológicas que precisam se hegemonizar no futuro.

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A Janela de Overton foi criada por Joseph P. Overton, à época vice-presidente sênior do Centro Mackinac de Políticas Publicas de Michigan, EUA, um Think Tank liberal. A Janela de Overton é um modelo para se entender como as ideias de uma sociedade mudam ao longo do tempo e passam a influenciar políticas públicas. Os políticos no sistema representativo limitam-se a apresentar projetos que traduzem a média da mentalidade da população ou do nicho que eles representam. Essa média da mentalidade é representada pelos discursos e temas que estão sendo proferidos no momento e são consideradas em uma janela, ou seja, visíveis. Outras ideias, mesmo consideradas importantes, mas que não estão na janela, nunca são propostas ou colocadas em discussão pública diretamente, pois as chances de serem rejeitadas são grandes.

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A missão dos Think Tanks, formadores de opinião, youtubers e as chamadas mídias alternativas, é deslocar a Janela de Overton para esses temas e coloca-los em discussão para formação de consensos coletivos ou para que leis sejam propostas com base nessas ideias. Sim, trata-se exatamente de manipular a opinião pública a favor de seus interesses. E é isso que o núcleo bolsonarista faz ao pautar temas polêmicos, trollagens e relativização dos absurdos proferidos por Bolsonaro e seu clã, seja através de seus milhares de bots nas redes sociais, grupos de Whatsapp ou, diretamente, de seus integrantes.

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Não há como isentar o ato de Bolsonaro e de seu correligionário Allan dos Santos. Eles não estão alheios ao que acontece na alt-right mundial e comungam de toda agenda ideológica dessas organizações. Não podemos esquecer o pronunciamento de Roberto Alvim como secretário da cultura usando tanto a retórica quanto a estética nazista e, mais recentemente, o fiasco na tentativa de formar uma milícia aos moldes fascistas feita pela Sara Winter com seus 300 de Brasiília.

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Podemos estar diante de um exemplo emblemático do Paradoxo de Poe, um fenômeno derivado de outro fenômeno chamado Lei de Poe. Basicamente a Lei de Poe refere-se a debates da internet sobre religião ou política. Ela afirma ser impossível ser irônico, criar uma paródia ou fazer uma gozação sobre um fundamentalista ou extremista sem que haja algum sinal ou emoji denunciando que se trata de uma ironia ou paródia, pois sempre haverá alguém que irá considerar como real. O Paradoxo de Poe, por sua vez, nos revela que em qualquer grupo extremista, é totalmente possível que um membro se expresse de tal forma que aquilo que ele diz seja confundido com uma ironia, paródia ou gozação, podendo ser punido ou mesmo expulso do grupo. Conclusão, nem os próprios extremistas sabem seus limites.

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Por fim, não nos parece nada impensável que o Desafio do Leite aceito por Bolsonaro e seus correligionários sirva também para construir e consolidar a janela racista de apoio à política de repressão que vimos assistindo, evidenciada pelos discursos e atitudes eugenistas e racistas, da sua estreita ligação com a Alt-Right estadunidense e a estratégia troll de abrir janelas de Overton para temas autoritários e reacionários. O fato é que estamos diante de algo a ser combatido em sua mais profunda raiz. Não é mais possível cruzarmos os braços quando vidas estão sendo eliminadas não apenas pela negligência de uma gestão incompetente, mas por uma política real, efetiva: uma necropolítica encabeçada por Bolsonaro aqui no Brasil, mas que forma uma rede internacional articulada por figuras como Steve Bennon e com a ascensão de extremistas de direita, fascistas e neonazistas ao poder em diversos países. Combatê-los é uma questão humanitária, pois nenhum deles tem uma visão de Estado que busca minimizar os efeitos de um capitalismo predatório e concentrador de riqueza, ao contrário, apesar da retórica nacionalista, todos esses líderes trabalham incessantemente para marginalizar, excluir e subalternalizar os trabalhadores para extração exponencial da riqueza gerada pelo trabalho.

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A luta antifascista é, mais do que nunca, a luta de todos nós…

Referências e Bibliografia

Curry, A. Arqueologia: a revolução do leite. Nature 500, 20–22 (2013) https://doi.org/10.1038/500020a

Check, E. Como a África aprendeu a amar a vaca. Nature 444, 994–996 (2006). https://doi.org/10.1038/444994a

Stănescu, Vasile, ‘White Power Milk’: Milk, Dietary Racism, and the ‘Alt-Right’, Animal Studies Journal, 7(2), 2018, 103–128. Available at: https://ro.uow.edu.au/asj/vol7/iss2/7

https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3229995 — Got Mylk? The Disruptive Possibilities of Plant Milk

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51511316 — Inspirado nos EUA, Bolsonaro adota tática de troll: testar limites para ganhar visibilidade, diz filósofo.

https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/02/behind-the-internets-dark-anti-democracy-movement/516243/?utm_source=atltw

https://gauchazh.clicrbs.com.br/mundo/noticia/2019/01/alt-right-bush-bannon-trump-e-olavo-de-carvalho-o-que-esses-nomes-tem-em-comum-com-o-governo-bolsonaro-cjqs3omyb00i301uki2jv1ski.html

Janela de Overton — https://www.mackinac.org/overtonwindow

Lei de Poe — https://www.urbandictionary.com/define.php?term=Poe%27s%20Law

Paradoxo de Poe — https://www.urbandictionary.com/define.php?term=Poe%27s%20Paradox

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