Dossiê Gambiarra – O Genocida Cristão

Quatro mil, duzentos e onze mortos em 24 horas. Quatro mil… Acabamos de dobrar nosso próprio recorde diário em um mês. Um mês apenas. Com isso, amargamos o total de 337 mil mortes no último dia 06/04/21, com 1 ano de pandemia. O Carrasco de nossa República segue incólume, intocável, ceifando vidas de forma irresponsável e com o apoio de uma base religiosa nefasta muito mais preocupada com o dízimo do que com a vida de seus fiéis. Sim, sem exceção, todos os seguidores de Bolsonaro se dizem cristãos e já passou da hora de cobrarmos da facção religiosa que lhe dá apoio sua responsabilidade de forma mais contundente e direta. Até onde serão capazes de ir? Até onde estarão dispostos a matar, manipular e desgraçar a vida brasileira em nome de seus interesses, mas dizendo ser interesse de Deus?

Mais do que nunca é preciso dizer, bradar, escrever nos muros do mundo as palavras de Maria Lacerda de Moura; mineira anarquista do século passado:

Cristo é um mito muito alto: não cabe dentro do Cristianismo… O Cristianismo é anti-cristão. É a negação absoluta das palavras de doçura e amor de Jesus de Nazaré. O Cristianismo para mim é a significação mais perfeita de uma civilização voraz de déspotas e escravos.

(MOURA, 2018, p.17)

Embora Maria Lacerda se referisse à espúria aliança do catolicismo com os regimes fascistas do início do século XX, o cristianismo mais uma vez se associaria ao que é de mais desumano, cruel e nefasto nas relações de poder da contemporaneidade. A Igreja Católica, agora comandada por um Papa de viés menos retrógrado, ainda abriga em seu interior uma grande quantidade de reacionários nostálgicos do poder que exerciam sobre corpos e comportamentos por várias gerações. Não é raro padres reproduzindo o que é de mais abjeto e atrasado para alimentar a sanha anticomunista revivida pelo neo-reacionarismo contemporâneo (um prato requentado de fundo supremacista branco).

Olavo de Carvalho, mentor (des)intelectual da cúpula brasileira, tanto quanto Steve Bannon, são católicos. Alexandr Dugin, outro mentor próximo a estados autoritários de renome mundial, professa o cristianismo pela Igreja Ortodoxa Russa. Claro que essa tríade, assim como muitos cristãos atuantes nos governos populistas de direita atualmente, professam externamente o cristianismo enquanto formulam suas teorias mirabolantes sob influência da corrente tradicionalista esotérica (Perenialismo), inspirados por René Guenon e Julius Évora (entusiasta dos governos fascistas de Mussolini e Hitler).

No entanto, em terras ocidentais, tanto nos EUA ao Norte, quanto na America Latina ao Sul, um fenômeno mais avassalador tem dado suporte fundamental para a consolidação (ao menos eleitoral) da acensão populista de extrema-direita no poder: o evangelismo pentecostal. Não é segredo que o neopentecostalismo começou nos EUA e logo deu as graças por aqui, mas é preciso fazer uma certa contextualização, sob pena de sermos levianos ou não abordarmos esse fenômeno sem sua devida consistência.

One Nation Under God

Estamos nos idos anos 30 do século XX. Segundo o pesquisador e professor Reginaldo Carmello (MORAES, 2019), desde a fundação das treze colônias norte-americanas a religião se cruza com sua história política. No entanto, a mitologia em torno da Nação Cristã é fruto de um árduo trabalho de imaginação e propaganda. Foi exatamente como reação ao prenúncio de um Estado de Bem Estar Social, o New Deal de Franklin Delano Roosevelt – após a Grande Depressão – que essa ideia começou a ser gestada e engendrada. Vista como ante-sala do bicho-papão Comunismo, as reformas econômicas, regulamentação do mercado financeiro, obras públicas e as políticas sociais tiveram forte oposição dos grandes empresários americanos: ultraconservadores e, obviamente, cristãos. O lema “Liberdade sob as ordens de Deus” foi amplamente difundido pelos recrutados ativistas religiosos desses grandes magnatas.

O plano era simples. Contando com a simpatia de muitos pastores protestantes, o interesse de classe do grande empresariado precisava criar a ideia de que o capitalismo era a própria encarnação do cristianismo, sendo o cristianismo a sua sublimação espiritual: “a realização da Glória de Deus” (MORAES, 2019). À J. Walter Thompson, a mais antiga agência de publicidade do mundo e especializada em disseminação de hábitos de consumo, coube a tarefa de formular uma grande campanha de incentivo ao novo produto no mercado: Cristo. Assim, milhares de fiéis foram arrebanhados e passaram a frequentar os estábulos, ou melhor, templos, espalhados pelo país, fomentando:

(…) o comparecimento periódico ao supermercado do espírito, a igreja. Na base do ‘encontre você mesmo através da fé’, a campanha levava todo mundo para os templos, que passavam a oferecer uma grande variedade de atrações.

(MORAES, 2019)

Aos poucos, de forma deliberada e planejada, surgiu uma espécie de “americanismo” baseado numa “religião civil” em oposição à ameaça comunista e sua versão interna insidiosa: o suposto coletivismo estatista de Roosevelt. O plano envolvia tanto acesso a parlamentares do Partido Republicano quanto o acesso e posse de mídias de massa, como jornais, revistas, rádios e até estúdios de cinema. Na chegada da TV nos anos 50, o alcance passou a ser exponencial. Não à toa, em 1956, sob o comando do 34º presidente estadunidense, Eisenhower, a frase “In God We Trust” foi incorporada nas notas de dólar. Sob o comando de Eisenhower – a primeira e uma das mais importantes conquistas do movimento – a “cristianização” dos americanos se massificou.

Da mesma forma que os sindicatos foram e são a âncora social do partido democrata, os espaços sociais criados pelo movimento evangélico foram e são a âncora social dos republicanos. A diferença é que os democratas possuem uma relação um tanto ambígua com a organização sindical nos EUA, enquanto que o movimento evangélico só cresceu e prosperou sob a proteção dos republicanos. Ao criarem não apenas templos, mas espaços de socialização e troca, acabaram por formar uma cultura própria e, de certa forma, imune aos apelos do mundo humanista laico. Afinal, sendo o mundo real um desdobramento de um mundo espiritual comandado por Deus, toda realidade é parte de um plano cujas agruras e privações se constituem em desafios divinos de fé, resiliência e perseverança:

O objetivo do movimento era religioso e político ao mesmo tempo: purgar os pecados coletivos, nacionais, os pecados da América — o ‘homossexualismo’, o aborto, o feminismo, o humanismo secular que se opunha à fé. A família nuclear estava ameaçada. Era preciso defendê-la no espaço público.

(MORAES, 2019)

Mais do que tudo, era a questão ideológica que unia de um lado o liberalismo econômico dos conservadores e sua tara por controle social de comportamentos e, de outro, a ganância dos pastores pentecostais. O American Dream que pregava o esforço individual como garantia de sucesso financeiro, se encaixava como uma luva na ideia de retidão e austeridade para se conseguir o reino dos céus. Ser cristão, estar filiado a uma igreja e pagar dízimos, garantia parte dos requisitos para ser abençoado no capitalismo. A Teologia da Prosperidade é o equivalente à meritocracia liberal: pague dízimo (com sacrifício e esforço individual) que sua recompensa será na terra mesma, com bens e recursos acumulados concedidos por Deus. É por isso também que uma das doutrinas pentecostais envolve o conceito de Batalha Espiritual (Spiritual Warfare). A ideia é construir uma tautologia retórica em que tudo o que acontecer terá uma explicação que torna o indivíduo cativo dentro de um círculo que se auto-alimenta com foco na continuidade do próprio processo.

Ou seja: há forças malignas disputando sua alma com Deus e você deve vencê-las e obter a recompensa divina através de prosperidade material. Se você não conseguir prosperidade é porque não teve fé o suficiente, portanto deve continuar se submetendo e se esforçando até conseguir. Os possibilitadores dessas recompensas, como emissários de Deus, além dos pastores, claro, são os empresários: seres abnegados que correm todo o risco em um mercado selvagem para que você obtenha sua redenção. A classe empresarial constitui os novos patriarcas do cristianismo, aqueles que irão trilhar e orientar o caminho de nossa salvação desde a terra.

A união dessa lógica e o deslocamento conveniente sobre como essas forças malignas se apresentam na realidade, torna tudo muito manipulável a favor do que as lideranças religiosas determinam. No caso, escolheu-se representar essas forças (de acordo com os desejos dos grandes capitalistas) por qualquer medida imposta pelo Estado que contrariasse sua ampla liberdade em explorar o trabalho humano e acumular riqueza com isso. O grande mal, portanto, torna-se o Estado, o Comunismo, o Islamismo e toda e qualquer ideia anticapitalista que ameace a livre iniciativa dos grandes patriarcas modernos.

Embora Reagan, nos anos 80, e Bush (tanto pai quanto filho) tivessem obtido sucesso com o apoio massivo dessa rede cristã (favorecendo aqueles que estavam por trás de suas eleições), o que mais intriga quem se depara com o cenário mais recente é por que, afinal de contas, essa rede apoiou e ainda apoia Trump? Mesmo sendo notoriamente hipócritas, Reagan e os Bushs tentavam mostrar certa decência junto a seu eleitorado. Trump não. Mentiroso contumaz, disse em áudio vazado que pegava mulheres pela vagina, foi acusado de ter tido encontros com uma atriz pornô mesmo casado e afirmou que os imigrantes mexicanos não passam de degenerados estupradores. Mais ainda: Hillary Clinton, sua adversária na primeira disputa, é cristã. Mas isso não fez diferença: mais de 80% dos evangélicos brancos dos EUA votaram em Trump em 2016.

A antropóloga Tanya Marie Luhrmann tem, pelo menos, três explicações para esse fenômeno. A primeira e talvez mais importante tem a ver com pautas de longo prazo. A nomeação da Suprema Corte nos EUA coloca membros para decidir sobre a vida estadunidense por muito mais tempo que um mandato presidencial. Muito embora os evangélicos acreditassem que comportamentos imorais na vida privada fossem prejudiciais para o desempenho de funções públicas, bastou Trump dizer em campanha que nomearia um juiz para derrubar a interrupção voluntária de gravidez (caso Roe vs Wade), 72% dos eleitores cristãos passaram a ser mais flexíveis com esse vínculo moral. Outra razão que parece resolver o suposto conflito moral que alguns cristãos poderiam ter sentido com Trump na presidência é a própria Bíblia. Segundo Luhrmann a Bíblia conta que:

David skips out on a battle, and, while his men are fighting, spies on a woman bathing naked. He learns that she is married, but he forces her to have sex with him anyway. He can do this because her husband is one of those fighting. When the woman tells him she is pregnant, he first brings the husband back and tries to get the man to sleep with her, so the man will assume that the child is his. But the man is too righteous to have sex when the men under his command are fighting. So David deliberately sends him back to the front of the battle to get him killed. He does this so that no one discovers his own adultery. Yet the Bible tells us that David is a man after the Lord’s own heart. Acts 13:22: “[God] raised up unto them David to be their king; to whom also he gave their testimony, and said, I have found David the son of Jesse, a man after mine own heart, which shall fulfil all my will.

Davi foge de uma batalha e, enquanto seus homens lutam, espia uma mulher se banhando nua.  Ele descobre que ela é casada, mas a força a fazer sexo com ele mesmo assim. Ele pode fazer isso porque o marido dela é um daqueles que lutam. Quando a mulher lhe diz que está grávida, ele primeiro traz o marido de volta e tenta fazer o homem dormir com ela, então o homem vai presumir que o filho é dele. Mas o homem é muito justo para fazer sexo quando os homens sob seu comando estão lutando. Então Davi deliberadamente o manda de volta à frente da batalha para matá-lo. Ele faz isso para que ninguém descubra seu próprio adultério. No entanto, a Bíblia nos diz que Davi é um homem segundo o coração do Senhor. Atos 13:22: “[Deus] suscitou-lhes Davi para ser seu rei; a quem também deu seu testemunho. (LURHMANN, 2017) – tradução nossa.

Se o próprio Deus (segunda a Bíblia), afirma que um mentiroso adúltero, estuprador e assassino é um “homem segundo o coração do Senhor“, quem de nós poderia condenar Trump se ele está a fazer algo de nosso interesse? Ninguém. Essa paz de espírito canalha e conveniente não é apenas algo que a Bíblia permite em suas narrativas, mas é algo que todo canalha procurará nela para justificar suas escolhas nefastas e, até mesmo, anticristãs. O mais emblemático é que esses arranjos feitos pelas cúpulas dos grandes templos junto aos estrategistas de campanha de Trump acabaram por soar ao eleitor comum como um sinal de Deus.

Por fim, Lurhmann fala sobre o imaginário criado pelos evangelistas neopentecostais acerca do “fim dos tempos” e a volta do Salvador. Não só Steve Bannon escreveu e apela para essa teoria do caos (Kali Yuga antes da Era de Ouro), como os próprios cristãos literalistas (25% do total) a propagam com base no Apocalipse. Eles acreditam que a salvação virá depois de um período de caos e catástrofe iminente e Trump tem uma missão especial na salvação do mundo. Em algumas versões Trump é o próprio salvador. Não por acaso a teoria da conspiração QAnon tem tantos adeptos cristãos e elegeu Trump como salvador de todos contra o Deep State (Estado Profundo) comandado por canibais pedófilos satanistas que querem levar o mundo a um governo único.

Trump não só alimentou tudo isso, como sinalizou claramente que iria realizar o que os cristãos tanto desejam: “Vamos restaurar a fé como o verdadeiro fundamento da vida americana” (FANG, 2020). Em julho de 2020, notícias davam conta que Trump teria apoio de 90% dos evangélicos para sua reeleição, ou seja, mais ainda do que no primeiro mandato.

A compreensão de todo quadro exposto e seu desdobramento em terras brasileiras ficariam incompletas sem a inserção de um fenômeno que, não só apoia Trump dentro desse imaginário paranoico, como está intimamente ligado com o fundamentalismo religioso cristão: a Alt-Right.

Deus Vult

A Direita Alternativa (ou Altright) constitui dissidência e franca oposição ao Partido Republicano estadunidense, embora seus membros sejam votantes e colaboradores de membros do partido que demonstrem o extremismo desejado por eles. Sua oposição, porém, não os colocam mais perto dos Democratas. Ao contrário, ela se dá, justamente, porque eles entendem que os conservadores deveriam se distanciar ainda mais. Ou seja, eles são a extrema-direita que critica o posicionamento pouco à direita dos republicanos em geral. Viram em Trump um outsider capaz de resgatar o conservadorismo ao nível que eles almejam. Mais do que isso, formam por si só uma constelação de teorias e visões de mundo que, embora por vezes conflitantes, possuem muito mais pontos em comum do que não.

Richard Bertrand Spencer

Oficialmente, o termo Alt Right foi criado em 2008 por Richard Spencer, supremacista branco que defende um etnoestado e quer preservar o que ele chama de Civilização Ocidental Anglo-Saxã separada das demais, colocando-a como ápice da espécie humana. Suas crenças envolvem não só uma hierarquia racial (muitas vezes dita de forma eufemística como HBD – Biodiversidade Humana), como social e de gênero. Ao misturar paganismo nórdico com a estética medieval cristã, Spencer não pode ser classificado estritamente como cristão, porém seus seguidores em quase sua totalidade vão além da estética cristã que molda seus imaginários como modelo civilizacional: são cristãos.

Embora faça ressoar com propriedade os supremacistas brancos e o nacionalismo religioso da Ku Klux Klan (que, inclusive participa de seus comícios e manifestações), não é possível reduzir a Alt Right a uma mera atualização desses movimentos:

Ao contrário da Klan dos anos 1920, que era uma ordem nacional com capítulos locais, o alt-right é uma rede difusa de líderes e apoiadores que reivindicam o manto do alt-right. Eles contam com o Twitter (especialmente as campanhas de hashtag), jornais online, blogs e até mesmo grupos de reflexão como o National Policy Institute para distribuir sua mensagem. No Radix Journal de Spencer , Alfred W. Clark, um promotor da direita alternativa, escreve sobre a variedade de grupos que compõem o movimento: “identitários e arqueofuturistas, realistas raciais e blogueiros HBD [biodiversidade humana], a Nova Direita Europeia (ENR), edgelords, neo-reação (NRx) e reação (Rx), cristãos trad , neopagãos, nacionalistas brancos, PUAs [artistas do pick-up], etc. ”

(BAKER, 2016)

A lista estaria mais completa, de acordo com os centros de investigação do extremismo mundias, se incluíssem também os neonazistas, Proud Boys, Q-Anon, neoconfederados e uma constelação de racistas e extremistas que não só estiveram presentes na manifestação Unite The Right (manifestação ocorrida em Charlottesville, Virgínia, resultando na morte de um manifestante contra o comício), como abrigam em seus quadros maioria absoluta cristã protestante e católicos. Por ocasião da tentativa de motim realizada em Janeiro de 2021, após a derrota de Trump, os Proud Boys marcharam rumo ao Capitólio e, à certa altura, pararam e ajoelharam pedindo “reforma e avivamento” em nome de Jesus (DIAS e GRAHAM, 2021). Banners escritos “JESUS 2020” em azul e vermelho, cruzes brancas com nome de Trump e camisetas com dizeres anti-semitas completaram a bizarra cena.

Mais do que estritamente cristão como era a Ku Klux Klan (que exortava seus seguidores a imitarem Jesus como modelo masculino, incentivava os membros a frequentarem igrejas e tinham a bíblia e a cruz como símbolos sagrados da ordem), a Alt Rightama a cristandade, mas rejeita o cristianismo” (BAKER, 2016). Muitos acusam o cristianismo de hoje de incentivar a adoção de não-brancos ao invés de incentivar a procriação dentro da raça branca. Ou seja, a crítica está muito mais ligada a uma prática atual, de viés social, contrária ao racismo que eles almejam, do que ao próprio cristianismo, já que o consideram precursor da civilização branca que eles querem proteger.

A maioria daqueles que se identificam dentro da Direita Alternativa professam uma visão idílica da Idade Média e cultuam uma espécie de Guerra Santa: um retorno às Cruzadas para conter a “islamização” do mundo e garantir a supremacia branca cristã no Ocidente. Por isso disseminam a expressão Deus Vult, expressão em latim que significa “Deus Quer” atribuída ao Papa Urbano II no anúncio da Primeira Cruzada no ano de 1.095 de nossa era.

A questão judaica é outro ponto de aproximação e distanciamento entre os cristãos da ultra-direita e a Alt Right. Esse fato ficou evidente a partir da tentativa de Trump (imitada posteriormente por seu fantoche Bolsonaro) em transferir a embaixada dos EUA para Jerusalém. Apesar de grande parte dos cristãos (notadamente aqueles que abraçaram o extremismo da Alt Right) comungarem sentimentos anti-semitas, parte da base de apoio evangélica de Trump se situa em uma linha teológica cristã do sec. XIX chamada Dispensacionalismo. Esta doutrina teológica possui como características principais uma interpretação literal da Bíblia e a ideia (baseada no Apocalipse) que Jesus irá voltar para assumir o trono do Rei Davi em Jerusalém. Para tanto é necessário que Israel seja “limpa” de todas as outras religiões e seja entregue exclusivamente aos Judeus para que se cumpra a profecia da volta de Jesus (CORDEIRO,2018). A vitória de Trump significaria, para esses cristãos, a antecipação do Juízo Final e a salvação tão esperada pelos fiéis.

Por outro lado, desde 2016, tem se tornado rotineiro ataques terroristas domésticos anti-semitas nos EUA. Em carta publicada no 8chan antes do ataque à sinagoga Chabad de Poway em San Diego, dia 27/04/2019, o atirador fez citações bíblicas e teológicas cristãs, para delírio e apoio do público do fórum online. Diferente da ideia de que os cristãos devessem libertar Jerusalém para os Judeus para a volta de Jesus, muito cristãos encontram justificativas bíblicas e teológicas para resgatar Jerusalém dos Judeus e dos Islâmicos por serem o verdadeiro povo escolhido de Deus, já que pairam sobre os hebreus a acusação de serem os responsáveis pela condenação e crucificação de Jesus (BATT, 2019).

De qualquer forma é evidente o imbricamento entre cristianismo e extrema-direita, seja ela de fundo ultraliberal ou fascista (no fundo, ambos se unem por caminhos distintos), meramente estético ou com adaptações teológicas alternativas. As ideias de fundo, com alguns detalhes (uns mais importantes e outros não) são muito próximas ou até idênticas: uma Ordem Mundial Globalista (com ou sem Judeus envolvidos) que pretende a instauração de um Governo Único como ápice da secularização e criação de direitos inaugurados na Revolução Francesa, eliminação dos valores que fundam a chamada Civilização Ocidental (representada etnicamente por brancos protestantes anglo-saxões – WASPsWhite Anglo Saxon Protestant) e a disseminação de relativismo de gênero, multiculturalismo, controle estatal e Comunismo. Tudo que é atribuído a essa Nova Ordem deve ser rejeitado integralmente, inclusive a ciência institucional desenvolvida pelos órgãos internacionais, tidos como globalistas. Por isso outros movimentos acabam se agregando e engrossando o caldo esdrúxulo de todo esse cenário, como o movimento anti-vacina e a negação de todas as recomendações relativas à contenção da proliferação de pandemias e vírus.

Segundo o New York Times, dos 41 milhões de adultos brancos evangélicos dos EUA, cerca de 45% afirmaram se recusar a receber a vacinação contra o COVID-19. As justificativas são as mais variadas, mas centram-se nas questões religiosas, políticas e científicas todas alimentadas por fakenews e sensacionalismos oriundos de pastores e teóricos de conspiração da extrema-direita.

Este quadro assustador transcrito aqui é necessário para se entender como o plano genocida de Bolsonaro tem dado certo sem que possamos fazer mudanças significativas, sem emplacar seu afastamento ou processá-lo em tribunais internacionais. Vamos entender melhor isso nas linhas a seguir.

Brasil acima de tudo, Deus acima de todos

Não foi por acaso que Ernesto Araújo, nosso incompetente ex-ministro das Relações Exteriores, comparou Bolsonaro a Jesus Cristo na formatura de novos chanceleres em maio de 2019. Araújo teve sua indicação ao cargo feita pelo Olavo de Carvalho com efusiva anuência de Eduardo Bolsonaro e Filipe G. Martins (olavista com acesso direto a Bolsonaro). Foi esse mesmo Ernesto quem escreveu um artigo publicado na Revista Cadernos de Política Exterior conclamando Trump como salvador do Ocidente Cristão. Toda retórica Alt Right está presente no texto e nas falas de Ernesto, seja fazendo alarmismo contra a tal Nova Ordem Mundial, o Globalismo, “Ideologia de Gênero” ou ajudando o genocida maior da república desdenhar da pandemia e desacreditar as medidas de combate ao contágio. Seu plano era que o Brasil participasse do que ele chama de “metapolítica”, alinhado ao pseudo-salvacionismo trumpista de extrema-direita religiosa:

(…) o Brasil necessita de uma metapolítica externa, para que possamos situar‑nos e atuar naquele plano cultural‑espiritual em que, muito mais do que no plano do comércio ou da estratégia diplomático‑militar, estão‑se definindo os destinos do mundo. Destinos que precisaríamos estudar, não só do ponto de vista da geopolítica, mas também de uma “teopolítica”.

(ARAUJO, 2017, p. 354)

Teopolítica? Mais adequado à mentalidade medieval e retrógrada desses que tomaram de assalto a República, TEOCRACIA. É isso que pretendem. Araújo é católico, tal como seu guru Olavo de Carvalho. Em sessão no Senado Federal, convocado para explicar a relutância e incompetência brasileira na compra do imunizante para a COVID-19, foi acompanhado por Filipe Martins (fanático seguidor de Olavo) que protagonizou algo absolutamente bizarro: um gesto característico da Alt-Right supremacista para sinalizar White Power.

Assessor Internacional de Jair Bolsonaro, Felipe Martins fazendo gesto supremacista no Senado brasileiro.

Mais do que uma aproximação eleitoreira, a participação de evangélicos no Governo Federal só não ultrapassa a de militares, porém é muito mais numerosa no entorno do poder do que de forma direta, em cargos públicos. Tal como nos EUA, a cristianização do Brasil vem sendo gestada e desenvolvida há décadas, desde 1970, com impulso considerável na redemocratização do país.

Ronilson Pacheco, pesquisador da Fundação Ford e mestrando em Teologia na Universidade de Columbia, EUA, localiza no século XIX o início das missões evangélicas estadunidenses em solo brasileiro. As raízes conservadoras que frutificaram aqui tem resquícios nos migrantes missionários remanescentes da derrota da Guerra de Secessão, formados por brancos racistas que logo se aproximaram das elites agrárias:

A presença evangélica no Brasil tem uma herança do universo evangélico conservador dos Estados Unidos. A formação da nossa igreja evangélica se dá com uma imigração significativa de evangélicos cristãos do sul dos Estados Unidos, que perdem a Guerra de Secessão [1861-1865] e vão fazer missões no Brasil. Eles têm um projeto de evangelismo, conquistar territórios, povos, converter almas, abrir novas igrejas. E é um um projeto profundamente conservador, inclinado à escravidão como parte da economia. É uma igreja que cresce associada à perspectiva elitista e de poder. Claro que há fissuras, mas há essa influência.

No início do século 20, sobretudo com a ampliação do campo pentecostal, mais ligado à Assembleia de Deus, eles constroem uma relação com governadores, presidentes, e isso se intensifica durante a ditadura militar. Há um apoio forte à ditadura de algumas igrejas, como as convenções da Assembleia de Deus. Essa parceria atravessa a ditadura e entra na redemocratização.

Ronilson Pacheco in Deutsche Welle, 21/02/2021.

Apesar do predomínio católico em boa parte do século XX no Brasil, foi na década de 70 que a ascensão do neopentecostalismo se iniciou com a fundação da Igreja Evangélica Pentecostal Brasil para Cristo, Deus é Amor e a Igreja Universal do Reino de Deus. Hoje, grandes pastores e seu maquinário político sócio-religioso dão base de sustentação a Bolsonaro. Edir Macedo, Silas Malafaia, Valdomiro Santiago e R. R. Soares formam uma espécie de governança baseada no fundamentalismo e na exclusão que compõe o Cristofascismo de Bolsonaro, termo usado pelo teólogo Fábio Py.

A influência evangélica vem crescendo ano a ano a partir da década de 1970. No último censo de 2010, o IBGE apontava um crescimento de 61% da população evangélica no país em um período de 10 anos (QUEIROZ, 2019. p 12). No início, considerada como um dos aspectos da vida privada dos fiéis, a religião começou a estender seus domínios no plano público e político, elegendo parlamentares e pautando suas crenças na esfera institucional.

Mesmo ocasionalmente e por interesses próprios apoiando um ou outro candidato à esquerda, os grandes templos do Brasil sempre foram avessos a pautas sociais e de minorias. Seja por falta de candidato com possibilidade majoritária ou por acordos para não se discutir pautas identitárias, parte do governo Lula e Dilma obtiveram apoio evangélico. Não se pode dizer que foi exclusivamente por questões econômicas que a esquerda tenha perdido apoio. A influência estadunidense e os movimentos evangélicos que se associaram aos interesses capitalistas tiveram grande influência ideológica no pensamento brasileiro. A ascensão da Teologia da Prosperidade e seu total alinhamento ideológico com o Liberalismo Econômico tiveram papéis importantes, faltando apenas um candidato que pudesse reunir condições de representá-los, seja na pauta de costumes de fundo religioso, seja na pauta econômica de fundo liberal.

Segundo Magali do Nascimento Cunha, doutora em comunicação, em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, a ligação de Bolsonaro com o meio evangélico não é tão recente assim. Ao menos é possível destacar o ano de 2013 como provável início, quando, ainda deputado, Bolsonaro apoiou o Pastor Marco Feliciano para presidir Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal (CDHM). Feliciano, à época, além de estar enfrentando um processo por estelionato, estava respondendo ao STF por afirmações racistas e homofóbicas publicadas em seu Twitter, atribuindo uma maldição de Noé ao povo africano por “homossexualismo”.

Batismo de Jair Messias Bolsonaro feito pelo Pastor Everaldo no Rio Jordão, em Israel.

Em 2016, Bolsonaro se filia ao PSC (Partido Social Cristão). Apesar de católico foi batizado no Rio Jordão (tal como Jesus por João Batista) pelo deputado Pastor Everaldo (preso pela PF em 2020). A partir daí, suas ligações com os grandes templos, seu antipetismo visceral, seus elogios a Eduardo Cunha (também evangélico, corrupto e presidente da Câmara dos Deputados em 2016 – tendo sido responsável pelo inicio do processo de impedimento de Dilma Roussef), consolidou sua preferência entre o eleitorado:

Bolsonaro foi muito bem instruído no discurso que alimentou a pauta de costumes de sua campanha, afetando fortemente o imaginário evangélico conservador calcado na proteção da família tradicional, na heteronormatividade e no controle dos corpos das mulheres. Foi muito caro a muitos evangélicos imaginar ter no poder maior do país alguém defensor de suas pautas, como ‘homem simples, do povo, que fala o que pensa’ e isto parece ter sido um propulsor do voto que descarregaram em Bolsonaro.

(Magali do Nascimento Cunha in FACHIN, 2019)

Mas não se enganem. Assim como Trump, pautar ideias caras ao conservadorismo religioso não garante por si só uma eleição majoritária. A ação direcionada, intencional e massiva dos pastores tiveram um peso essencial na ascensão e vitória de Bolsonaro. E como aconteceu nos EUA, aqui no Brasil não poderia ter sido diferente. Nossas histórias têm muitas semelhanças, muito embora costumamos repetir o que eles fazem de forma canhestra, provinciana e caricatural. Embora a percepção do eleitorado evangélico pudesse direcionar uma tendência de voto em Bolsonaro contra Haddad, foi preciso a construção de uma mitologia apelativa, repetida à exaustão nos cultos e cerimônias religiosas do Brasil; seja nos grandes templos midiáticos, seja nas pequenas igrejas de bairro. Primeiro, a dimensão escatológica, de fim dos tempos, de degeneração, pobreza e privações representado pelo antipetismo e as revelações da operação Lava a Jato. Segundo, a dimensão apocalíptica, de revelação e possibilidade da vinda do messias salvador, representado pelo atentado mal sucedido contra Bolsonaro por Adélio Bispo. Por fim, a dimensão soteriológica, representada pela redenção e nascimento de um país cristão em que todo o esforço dos fiéis serão recompensados.

Bolsonaro obteve cerca de 70% dos votos válidos de evangélicos no último pleito.

Bolsonaro tem retribuído à altura. Mesmo por questões burocráticas tendo vetado o projeto de isenção de tributação a igrejas, disse ser a favor da isenção e jamais cobrou os impostos atrasados, na casa de R$ 1,4 bilhão. Tentou, em vão, manter abertas igrejas e templos durante a fase mais grave da pandemia com a ajuda de sua mais nova nomeação ao STF, ministro Kassio Nunes Marques. Ele ainda tem outra nomeação ao STF para cumprir a promessa do tal ministro “terrivelmente evangélico” que prometeu em 2019, já que Nunes é católico.

Se ainda não temos um equivalente da alt-right estadunidense ou da Geração Identitária francesa em terras brasileiras, não é por falta de esforço. Somos consumidores de muito lixo que se produz mundo a fora e em breve é bem possível que movimentos do mesmo naipe apareçam com relevância por aqui. A tentativa fracassada dos 300 de Sarah Winter foi um prenúncio preocupante, mas que só deu errado porque ousaram ameaçar o STF. Massas de manobra suscetíveis a recrutamento extremista parecem não faltar aqui. Grupos de pequena relevância já se organizam, seja em torno de Olavo de Carvalho, dentro das igrejas ou mesmo de cunho político baseado na Quarta Teoria Política de Dugin.

Desde a eleição de Bolsonaro vem crescendo de forma alarmante células neonazistas em solo brasileiro. Porém o mais alarmante é o crescimento de filiados, que já ultrapassam (baseados em denúncias feitas a ONGs) a casa de 7 mil. Não são números pequenos, na medida em que a internet potencializa a disseminação dessas ideias em nível exponencial, apesar da vigilância. Mas tudo indica que sequer precisamos desse nível de extremismo aqui, muito embora tenhamos potencial. As teorias conspiratórias, a xenofobia, o racismo, a misoginia e a homofobia já estão desde sempre nas falas do atual presidente e gozam de grande apoio nas Igrejas, Polícias Militares, Forças Armadas e Milícias criminosas. O cidadão comum, de verde amarelo e temente a Deus pode exercer seu fascismo de dentro de casa, na internet; ocasionalmente fazendo barulho na rua, mas sempre contando com o aparato institucional para fazer o trabalho sujo. Sossegados, poderão ir ao templo para se convencer de que estão puros e recompensados por Deus ao encher os cofres sagrados dos magnatas da fé.

Enquanto isso, iludidos com tantas mentiras e teorias conspiratórias, o rebanho vai ao encontro da morte: negando vacina, negando a ciência, negando as medidas de proteção contra a pandemia, aglomerando e desafiando a racionalidade que, possivelmente, Deus tenha nos concedido. Não será somente na mão de Bolsonaro que estará o sangue de milhares de brasileiros, mas daqueles que em nome de uma fé torta, de uma suposta Guerra Justa, estão apoiando o carrasco da república e acreditando que ele é algum tipo de messias, quando na verdade é um genocida cristão que está matando os próprios fiéis em nome de interesses pessoais e poder.


Referências

Como citar esse texto:
Miranda Jr., Gilberto. Dossiê: O Genocida Cristão. Gambiarra MiniDoc, 12 Abr 2021. Disponível em: <https://gambiarraminidoc.org/o-genocida-cristao/>. Acesso em ____/_____/____.

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