Radicalismo Necessário

Da mesma forma que a palavra IDIOTA sofreu alterações em seu significado ao longo do tempo invertendo seu sentido, a palavra RADICAL também vem sofrendo transformações. Não se trata de mera extensão de sentido, ampliação ou a aquisição de sentidos figurados: é caso de mudança mesmo, total.

A palavra IDIOTES, do grego, designava aquele que é voltado para si próprio. ID se refere ao SI MESMO, o EU. Na Grécia Clássica aquele cuja vida era ensimesmada, egoísta e preocupada apenas com as coisas que lhe diziam diretamente respeito, estava em oposição ao POLITIKÓS, ou seja, em oposição àquele que se voltava para os problemas da Cidade, da Pólis grega. POLIS era a cidade grega, de mesma forma que cidade em latim vem de CIVITAS. Os Romanos se chamavam cidadãos enquanto os gregos se chamavam POLITIKÓS. No caso grego, porém, o Politikós tinha uma vida ativa e direcionada à melhoria da convivência coletiva na Pólis.

Com o tempo, a palavra Idiota se tornou sinônimo de tolo, carente de inteligência, estúpido. Talvez essa mudança de sentido tenha se desenvolvido pela aquisição de um significado pejorativo para esse tipo de comportamento. Se a vida na Polis e a preocupação coletiva eram uma virtude e um bem para os gregos, aquele que a negava só poderia ser um tolo, um estúpido. Faz muito sentido, muito embora o termo tenha se desprendido totalmente do sentido original e hoje se refira a qualquer ignorante ou estúpido, principalmente no meio político.

O termo RADICAL por sua vez, vem do latim RADIX e refere-se à RAIZ. Por extensão, à base, ao fundamento. Ou seja, àquele que está voltado aos significados mais profundos das coisas e procura, com estudo, descobrir dos fatos e da realidade, aquilo que, na sua ausência, a coisa deixa de ser o que é. A raiz é a base e fundamento de uma planta. Ela carrega em si – pois é aquilo que se espraia da própria semente – toda a potência de seu vir-a-ser, da sua plenitude. Procurar, estudar, esmiuçar, analisar o mundo na busca e compreensão do que fundamenta sua forma de ser é ser RADICAL em seu sentido mais original. Hoje, no entanto, ser radical é ser turrão, cabeça dura, não mudar de opinião e, em geral, achar que tem acesso privilegiado às verdades mais profundas sobre o mundo e as pessoas.

Nossos juízos e sentimentos sobre o mundo e as pessoas ocorrem alheios a uma ligação direta com os fatos, embora as pessoas acreditem que não. Fatos ocorrem sem um significado intrínseco ou alguma verdade oculta. A verdade dos fatos é relacional, requer uma mediação que lhe dê um significado a partir de um sujeito histórico que se relaciona intersubjetivamente com outros sujeitos do mundo. Ou seja, nossos juízos, sentimentos e o que chamamos de verdade sobre as coisas, fatos e eventos, são resultado da mediação simbólica sócio-cultural entre nós (sujeitos históricos formados socialmente) e os objetos do mundo (fatos, eventos, coisas, pessoas). Ser RADICAL e pretender ir às raízes dos juízos e verdades que proferimos sobre o mundo, significa estudar e esmiuçar os elementos que compõem essa mediação, mas não mais como propriedade essencial dos objetos, mas como características contextuais que são assumidas historicamente pelas formas como nos relacionamos com eles.

Por isso, ser RADICAL é saber que as relações sociais são estabelecidas por relações de poder determinadas historicamente dentro de uma estrutura hegemonicamente patriarcal. É saber que a lógica das nossas relações com o mundo e com as pessoas nasce dentro de determinações históricas que reproduzem a forma como lidamos com nossa subsistência, ou seja, reproduz a lógica utilitarista e exploratória do capital. Isso implica que ser RADICAL também é ser CRÍTICO: outra palavra polissêmica que foi perdendo seu sentido ao longo do tempo. Para o senso comum, CRITICAR é falar mal, não raro difamar, colocar defeito.

Crítica tem sua raiz, seu radical, nos remetendo à palavra grega Krinos, de onde nos trouxe CRISE e CRITÉRIO. Refere-se ao ato de separar, julgar, discernir entre o verdadeiro e o falso. Não há radicalismo sem crítica e não há possibilidade de crítica sem ser radical. Portanto, longe de se referir a alguém turrão, cabeça dura que só fala mal de tudo, um Crítico Radical (que é o que precisamos ser), desce à raíz (fundamento das coisas) e constrói um discernimento sobre elas, inclusive promovendo uma crítica a seu próprio pensamento, no sentido de separar aquilo que ele traz de determinações históricas como significado.

Não há como ser Anarquista sem ser Radical e Crítico, ou um Crítico Radical. Toda e qualquer prática possível sem uma crítica radical é só voluntarismo vazio, escapismo, ou no limite, ancapismo.

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