Um Sistema Livre de Trocas Voluntárias?

Não. Feudalismo e servidão voluntária…

A empulhação ideológica que solicita que o Capitalismo seja definido como um sistema de Trocas Livres Voluntárias precisa ser colocada onde merece: no roll dos sofismas. A redução do Capitalismo ao comércio, à cataláxia, cumpre a agenda de intoxicação ideológica que os Think Tanks importados vem promovendo para transformar o sistema capitalista na nova dimensão metafísica que deverá reger nossas vidas e relações sociais de forma indefectível no século XXI.

Junto com a demonização da esquerda, essa estratégia visa, sobretudo, tirar todos os aspectos críticos pelos quais podemos olhar o sistema e nos fazer aceitar de bom grado todas as suas determinações sem oposição, numa aceitação submissa e subalterna. Não aceitem essa empulhação sem antes esclarecer seu interlocutor. A não ser que ele seja um anarcocapitalista.

Nesse caso, ele provavelmente é um Pombo Enxadrista que irá evocar todos as conjurações do reino do Ancapistão para interditar o diálogo. Palavras de ordem como “imposto é roubo”, “estatista de merda”, “esquerdalha”, “soça inútil” farão parte do repertório e fará você perder tempo tentando demove-lo da histeria e ler/ouvir por meros 5 minutos o que você tem a dizer.

Passado o acesso de fúria, se ele ainda não feriu sua autopropriedade e não rasgou sua própria boca de raiva, você poderá calmamente explicar:

Trocas livres voluntárias sempre fizeram parte da história da humanidade, ao menos desde o Neolítico. Elas se caracterizaram pela troca daquilo que excedia a produção para consumo próprio das famílias e visavam aumentar sua satisfação adquirindo, pela troca, outros produtos produzidos por excedente de outras famílias. Esses ambientes de troca ficaram conhecidos como Mercado.

Há uma diferença substancial entre você trocar livremente aquilo que lhe é excedente tendo já satisfeito suas necessidades mais básicas de sobrevivência e a troca da sua força de trabalho por dinheiro a ser gasto para garantir tão somente a sua sobrevivência. É essa diferença fundamental que o Capitalismo inaugura enquanto sistema.

No sistema de produção capitalista não se trata mais de produção de excedente daquilo que foi produzido primordialmente para satisfazer as necessidades de quem produz. Trata-se de um modo de produção exclusivamente voltado à produção de mercadorias, as quais se definem por produtos exclusivamente destinado à troca por dinheiro.

Logo, o produtor não produz para se satisfazer e depois para aumentar seu conforto com o excedente. Ele produz vendendo sua força de trabalho em troca de um salário que o levará ao mercado para que ele tente sobreviver com o que ganhou. Esse mercado já não é mais livre desde aí, pois ele cria um sistema covalente com outro mercado criado pelo sistema: o mercado de trabalho. O esforço e a força de trabalho, que antes era o capital do ser humano para produzir riqueza para si, agora é uma mercadoria a ser vendida para produzir riqueza a outrem, em troca de uma promessa de satisfação incerta e arriscada de suas necessidades.

Portanto, dizer que Capitalismo é um Sistema Livre de Trocas Voluntárias é uma aberração cognitiva desonesta com clara intenção de te impedir de refletir sobre sua própria realidade.

É isso.


Texto originalmente publicado no Zine Filosofando na Penumbra:

https://medium.com/filosofando-na-penumbra/um-sistema-livre-de-trocas-volunt%C3%A1rias-88242e888453


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